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sábado, 13 de dezembro de 2014

Filme do Dia: O Solar dos Dragonwyck (1946), Joseph L. Mankiewicz

O Solar dos Dragonwyck (Dragonwick, EUA, 1946). Direção: Joseph L.Mankiewicz. Rot. Adaptado: J.L. Mankiewicz, baseado no romance de Anya Seton. Fotografia: Arthur C. Miller. Música: Alfred Newman. Montagem: Dorothy Spencer. Dir. de arte: J. Russell Spencer & Lyle R. Wheeler. Cenografia: Paul S. Fox & Thomas Little. Figurinos: René Hubert. Com: Gene Tierney, Vincent Price, Walter Huston, Glenn Langan, Anne Revere, Spring Byington, Connie Marshall, Harry Morgan, Vivienne Osborne.
Na provinciana Connecticut de 1844, A jovem e ingênua Miranda Wells (Tierney) vê a chance de fugir da estreita visão de mundo de sua família de colonos pobres liderada pelo patriarca Ephraim (Huston) com o convite de um primo rico que mora “do outro lado do Hudson”, Nicholas Van Ryn (Price) para ser perceptora de sua filha, Katrine (Marshall). Van Ryn, que parece interessado em Miranda, vê a chance de vir a casar com ela quando sua mulher, Johanna (Osborne) falece misteriosamente. O casamento rapidamente se transforma em uma tortura para Miranda, que vê em breve tempo o seu doce cavalheiro se transformar num rude e cruel viciado em drogas, que a rejeita de vez com a morte do filho de ambos no parto.
Esse filme compartilha de praticamente todos os cacoetes do romance gótico e de sua versão cinematográfica mais célebre e influente, Rebecca (1940), de Hitchcock. Nesse sentido, há desde uma sombria mansão vitoriana passando por um quarto misterioso, uma pintura evocativa de algum mistério e uma mulher de uma estirpe social bem mais acanhada tendo seu tratamento de choque diante de um mundo de valores morais e sociais bem distintos, entre muitos outros motivos. Desde muito cedo no filme fica patente que os valores morais que o narrador compartilha são os que se associam a democracia americana contra as espúrias tradições remanescentes do velho mundo representadas pela família de Van Ryn. Embora isso já tenha ficado evidente na postura de Van Ryn como um esnobe pomposo e afetado, ainda se faz questão de apresentar uma cena em que os trabalhadores se rebelam contra a arrogância desse senhor feudal temporão e outra na qual Miranda se recusa a ser tratada como Van Wells e afirma seu orgulho diante de sua origem humilde mas de uma família que “possui a sua própria terra”. Por outro lado Miranda não deixa de afirmar constantemente sua crença em Deus, contra o ceticismo cínico de seu marido. Essa contraposição que reafirma os valores da América Profunda tampouco deixa de estar plenamente vinculada com os valores do romance gótico e aqui se torna uma das dimensões subliminares mais importantes, algo que não chega a ser explorado mais explicitamente pelo filme de Hitchcock e o romance que o gerou. É curiosa como a “personificação do mal” vivida por Prince (cuja fama de vilão se tornará sua marca registrada a partir das adaptações de Poe efetivadas por Roger Corman na década de 1960) se deve tanto a reelaboração dramática do vilão medieval que é herdeira de sua tradição literária quanto de uma alusão aos movimentos totalitários na Europa contemporânea à produção do filme. Assim, Van Ryn gosta de demonstrar seu desprezo pela deficiente física que é empregada por Miranda, numa nada sutil alusão ao elitismo racial e físico que impregnava a estética fascista professada por Hitler. Primorosa direção de arte e fotografia. Tierney e Price também se encontram no elenco do clássico noir Laura. 20th Century-Fox. 103 minutos.


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