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segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Filme do Dia: Munique (2005), Steven Spielberg

Munique (Munich, EUA/Canadá/França, 2005). Direção: Steven Spielberg. Rot. Adaptado: Eric Roth & Tony Kushner, baseado no livro Vengeance: The True Story of an Israeli Counter-Terrorist Team. Fotografia: Janusz Kaminski. Música: John Williams. Montagem: Michael Kahn. Dir. de arte: Rick Carter, Ino Bonnello, Andrew Menzies, David Swayze, János Szabolcs & Karen Wakefield. Cenografia: John Bush. Figurinos: Joanna Johnston. Com: Eric Bana, Daniel Craig, Ciáran Hinds, Matthieu Kassovitz, Hans Zinschler, Ayelet Zorer, Geoffrey Rush, Michael Lonsdale, Lynn Cohen, Matthieu Amalric, Valeria Bruni Tadeschi.
Avner (Bana), ex-guarda costas da primeira dama Golda Meir (Cohen) é designado pelo alto escalão das lideranças político-militares israelenses, na presença da primeira-ministra, a assumir um grupo de contra-terroristas que irá revidar os 11 atletas massacrados nas Olimpíadas de Munique, em 1972, liderados pelo lacônico Ephraim (Rush). Também fazem parte do grupo o fazedor de bombas Robert (Kassovitz), o irascível, impulsivo e radical Steve (Craig), o especialista em forjar documentos Hans (Zischler) e o removedor de provas e líder do grupo, frio e mais ponderado Carl (Hinds). Juntos eles conseguem eliminar 7 dos alvos, seguindo as pistas deixadas pelo mercenário informante francês Louis (Amalric). Alguns deles pagam com suas próprias vidas. Carl é morto pela atrente espiã holandesa Sylvie (Tedeschi). Hans, grandemente pressionado pelas ações do grupo e aterrorizado com a vingança cometida contra Sylbir, após sair para um passeio ao ar livre. Robert, vítima de suas próprias engenhocas explosivas. Ainda que agora contando somente com Avner e Steve, o grupo realiza sua última operação. Avner parte então para os Estados Unidos ao encontro de Daphna (Zorer), sua mulher e da filha do casal. Inseguro por se sentir vigiado, ele enfrenta boa parte do alto escalão diplomático israelense para que o deixem em paz.
Primeiro filme “sério” do cineasta desde O Resgate do Soldado Ryan (1998), Spielberg parece aqui se esquivar das acusações de maniqueísmo que acompanharam sua produção dramática anterior. Nesse sentido, pode-se argumentar que o retrato traçado da alta cúpula do poder israelense não se afasta muito das atrocidades cometidas pelos grupos terroristas, já que permeados igualmente por um senso de vingança e o grupo contra-terrorista progressivamente perde qualquer escrúpulo em assassinar civis. Porém é bastante significativo que elementos na narrativa não apontem para semelhante postura crítica em relação aos israelenses. Não apenas se observa toda a ação sob a perspectiva do grupo contraterrorista, assim como fortes mecanismos de identificação são criados com o grupo, notadamente na figura de seu protagonista. Tampouco nenhum palestino ganha alguma vitalidade dramática enquanto personagem ou é acompanhado em suas ações e motivos de forma mais detida. Da mesma forma que os índios massacrados pelos filmes de faroeste de décadas passadas, os palestinos são ruins de pontaria. Para que a imagem do “herói” não seja maculada seja pelo jogo sujo da política israelense que o transforma em seu fantoche, seja pelo terrorismo insano palestino, cumpre frisar sua postura gradativamente autônoma e sua ingenuidade inicial com relação a qual será sua missão. Enquanto mero cumpridor de ordens de modo quase automático, Avner não será portanto atingido na sua essência, podendo sofrer uma crise de consciência que o reabilite moralmente e faça restituir seus valores morais e sua crença na família – já alertada por sua mãe – em solo americano. No fundo, retorna-se a uma celebração tradicional do típico herói liberal, manifestando sua autonomia diante da corrupção maior que rege a sociedade seja quando decide se devotar à família ou quando enfrenta galhardamente seus superiores. Tal imagem é selada em um cenário no qual do skyline nova-iorquino se enfatiza a presença das torres gêmeas. O resultado final do filme nada fica a dever às produções anteriores do cineasta, em que os motivos histórico-ideológicos tratados se tornam servos dos clichês dos filmes de gênero, aqui notadamente do filme de ação e de suspense. Sua tentativa de complexificação ao abandonar o maniqueísmo incisivo esbarra nos limites impostos pelo filme de gênero dramático, repleto de efeitos sensacionais melodramáticos ou através do suspense. Com relação ao suspense é digna de nota sua arcaica utilização da montagem paralela com a ida de uma criança que retorna ao apartamento no momento em que seu pai embaixador será assassinado pelo grupo – ou da forma espetacularizante em que os palestinos são mortos, dimensão ausente na morte dos membros do grupo de israelenses que já são encontrados mortos ou do qual apenas se observa a explosão mas nenhum cadáver ou sangue. A aparente maturidade com relação à elipse que inicialmente prefere não descrever detalhadamente o massacre dos atletas e as ações sanguinolentas que o precederam será desfeita bem mais adiante quando, à guisa de representar os pesadelos de um protagonista agora atormentado, acaba-se por expor tudo o que fora ocultado. Sem dúvida alguma, o pior momento do filme é a seqüência que igualmente faz uso da montagem paralela para retratar uma relação sexual em que Avner procura descarregar na esposa a fúria que sente do grupo de terroristas de Munique, no justo momento em que pensa no massacre dos atletas israelenses. Dreamworks SKG/Universal Pictures/Amblin Ent./The Kennedy-Marshall Co./Barry Mendel Prod./Alliance Atlantis Communications/Flashback Prod./Peninsula Films para Universal. 164 minutos.


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