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sábado, 20 de dezembro de 2014

Filme do Dia: Num Ano de Treze Luas (1978), Rainer Werner Fassbinder

Num Ano de Treze Luas (In Einem Jahr mit 13 Monden, Alemanha, 1978). Direção e Rot. Original: Rainer Werner Fassbinder. Fotografia: Rainer Werner Fassbinder. Música: Peer Raben.  Montagem: Rainer Werner Fassbinder & Juliane Lorenz. Dir. de arte: Franz Vacek. Cenografia: Rainer Werner Fassbinder. Com: Volker Spengler, Ingrid Caven, Gottfried John, Elizabeth Trissenaar, Eva Mattes, Günter Kaufman, Lilo Pempeit, Isolde Barth, Karl Scheydt, Walter Bockmayer.
Erwin (Spengler), jovem sensível e apaixonado pelo colega de açougue Anton Saitz (John), viaja para para Casablanca onde efetiva uma operação de mudança de sexo e se transforma em Elvira para agradar o mesmo, que afirmara que só iria amá-lo se ele fosse uma garota. Porém, sua vida fica ainda mais destroçada, já que mesmo separado da esposa Irene (Trissenaar) e da filha Marie-Ann (Mattes), não consegue se realizar afetivamente. Seu companheiro, Christoph (Scheydt) o abandona no mesmo dia em que é vítima de espancamento por parte de jovens que paga para ter sexo. Seu único refúgio é a prostituta de bom coração Zora (Caven) que lhe leva até uma freira que cuidara dele na infância, Gudrun (Pempeit), que conta todo o seu passado esquecido. Elvira vai ao encontro de Saitz, hoje multimilionário chefe de negócios escusos e esse concorda em ir até sua casa, mas fica nos braços de Zora. Completamente desnorteado, Elvira tenta voltar a ser Erwin, cortando o cabelo e se trajando como homem, porém é recusando tanto pela ex-esposa quanto pelo seu antigo amante, Christoph, que agora vive com uma mulher. Retorna a sua residência, onde se suicida diante do casal Saitz e Zora, que simplesmente o ignoram. Aos poucos, chegam todas as figuras que representaram algo na sua vida: Christoph, sua filha, Irene e Irmã Gudrun.
O próprio cineasta o considerava um dos filmes mais pessoais de sua carreira. Embora profundamente melancólico, o filme não deixa de possuir uma subterrânea corrente de humor (“se não fosse a melancolia, o mundo seria mais triste” afirma um suicida antes de praticar o ato), provocada por momentos que rompem completamente com as expectativas do melodrama. Nesse sentido, encontram-se tanto as intervenções do motorista (vivido por Kaufman, que irá sempre encarnar papeis do gênero em toda a filmografia do cineasta) tentando impedir que as pessoas tenham acesso ao quarto onde se encontra o corpo do protagonista – o elemento cômico no momento mais trágico – quanto a seqüência completamente estapafúrdia em que Seitz reencontra Erwin/Elvira e se delicia em imitar – sendo seguido pelos outros, inclusive Elvira - os trejeitos afeminados de um personagem de Jerry Lewis num número musical de um filme que assiste na televisão. Ou ainda, quando após motivada pelo impulso humanista de tentar salvar o suicida de seu desígnio e escuta uma série de convicções que abalam ainda mais sua frágil personalidade e parecem prognosticar seu próprio fim, Elvira acaba interropendo sua fala e o incentivando de vez a pôr um fim em sua vida. Narrado de forma descontínua – somente se toma conhecimento dos reais motivos para a operação em Casablanca já próximo do final  – o filme se inicia com legendas que atestam que 1978 é um dos anos de 13 luas, motivador de grandes tristezas para um determinada categoria de pessoa na qual, obviamente, se insere o protagonista. Como em muitos outros filmes do cineasta, aqui visivelmente se apresenta o interesse do mesmo por narrativas que os personagens apresentam dentro do enredo, mesmo que sem nenhum interesse diegético. Nesse sentido, se encontra a história infantil que Zora conta para Elvira ou que Elvira conta para seus ex-amantes ou ainda, e mais notoriamente anti-diegética, a do suicida no prédio de Seitz faz a respeito da defesa do suicídio como valorização da própria vida. Numa dessas narrativas – no caso, a do homem que afirma ter trabalhado para Seitz – Fassbinder, com seu habital senso de provocação, faz menção à continuidade do fascismo dos tempos de guerra na vida cotidiana da forma mais perversa: Seitz, judeu que teria sido prisioneiro num campo de concentração, soubera aplicar as táticas que aprendera no campo em seus negócios. Paradoxalmente, mesmo sendo um de seus filmes mais pessoais, já que dramatiza uma relação vivenciada pelo próprio cineasta com um amante que acabou se suicidando, é um dos que mais dialoga com a tradição do cinema europeu. Seja  quando incorpora o tema musical de Mahler e evocações de “olhares clandestinos” em locais desertos de Morte em Veneza (1971), de Visconti – mesmo que aqui para ilustrar igualmente uma sequência que acaba por ser o oposto do olhar platônico, no qual Elvira é vítima de agressão, já no prólogo do filme. Ou ainda quando se apodera da personagem de Cabíria para construir sua Zora e, para não deixar qualquer dúvida quanto à matriz, incorpora a trilha de Nino Rota para Noites de Cabíria (1957), sempre que o personagem entra em cena. Da mesma forma o teatro dos personagens que chegam subitamente para chorar o morto evoca, no seu absoluto desprezo pelo realismo, tanto 8 e ½ (1963), quanto filmes que ainda seriam realizados por Fellini, tais como Cidade das Mulheres (1980). Por outro lado, não há como não traçar algum paralelo com a obra de Almodóvar, com seus enredos permeados pela escatalogia e transexualismo, e até mesmo numa certa ambigüidade que igualmente trafega entre o humor e o melodrama – em filmes como Fale com Ela (2002) e Tudo Sobre Minha Mãe (1999). Também não se pode deixar de perceber um certo clima kafkaniano na seqüência do edifício de Anton Saitz, influência que o cineasta faz questão de frisar, quando a reafirma pela boca de um personagem que comenta estar lendo O Castelo. Filmverlag der Autoren/Pro-ject FilmProduktion/Tango Film. 124 minutos.


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