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quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Filme do Dia: Fogo e Desejo (1996), Deepa Mehta

Fogo e Desejo (Fire, Canadá/Índia, 1996). Direção: Deepa Mehta. Rot. Original: Deepa Mehta. Fotografia: Giles Nuttgens. Música: A.R. Rahman. Montagem: Barry Farrell. Dir. de arte: Aradhana Seth Com: Nandita Das, Shabana Azmi,  Jaaved Jaaffery,  Kulbhushan Kharbanda,  Kushal Rekhi, Ranjit Chowdhry,  Alice Poon.
        Em Nova Delhi, Sita (Das), jovem recém-casada, sente-se desconfortável com a indiferença do marido, Jatin (Jaaffery). Dono de uma videolocadora, ele apenas dá atenção a sua amante, a chinesa Julie (Poon), que sonha em ser estrela de cinema em Hong Kong. Após se casarem, ambos ocidentalizados,  passam a viver juntamente com o irmão de Jatin, Ashok (Kharbanda), extremamente religioso, e que fez a escolha por viver fraternalmente com a esposa, Radha (Azmi), formando um casal mais tradicional. Também vivem na casa a matriarca Biji (Rekhi), velha senhora semi-inválida após um derrame, que vela para que os valores tradicionais sejam cumpridos e Mundu (Chowdhry), criado, que ao invés de assistir aos filmes religiosos que Biji gosta, prefere assistir a filmes pornôs, que consegue na locadora de Jatin, não fazendo cerimônia em se masturbar na frente da velha, sabendo que ela não pode falar. Sentindo-se extremamente rejeitada pelo marido, Sita aos poucos acostuma-se com o cotidiano de ser traída. Quase todas as noites o marido vai atrás da amante, e Sita já encontrou seu retrato na carteira do marido. Um dia Radha, cada vez mais amiga, a encontra chorando na cama. Embora Radha pense que se trata pelo sentimento de rejeição, na verdade Sita revela chorar por ela, por quem se encontra apaixonada. As duas passam a vivenciar um romance tórrido, sob as vistas tanto de Biji quanto de Mundu. Certo dia, porém, Radha flagra uma sessão de pornografia de Mundu e afirma que irá despedi-lo. Ele ameaça contar tudo sobre o relacionamento das duas mulheres, o que faz. Após contar tudo a Ashok, e esse despedi-lo apenas por ouvir ele falando a respeito de tal coisa, Ashok flagra as duas na cama. Ele sai desesperado de casa, enquanto as mulheres decidem sobre o futuro delas. Sita resolve fugir e esperar por Radha em um templo religioso, enquanto esta procura explicar ao marido que vai deixá-lo. Completamente confuso porque achava que a mulher iria lhe pedir desculpas por tudo, Ashok é enfrentado por Radha, que afirma que ele deve buscar seu consolo na religião e não com ela. Radha vai ao encontro de Sita no templo.
        Entre cômico e dramático o filme repete os mesmos cacoetes de qualquer drama de costumes pós-moderno. Fé na modernidade de espírito contra os valores tradicionais que apenas tornam infelizes minorias (em dose dupla, no caso). Fé no prazer, no corpo contra a religião e seus valores espirituais que apenas escondem hipocrisia. Tudo sem maiores elaborações. Em um único momento Radha vacila e pergunta se não está se transformando em alguém egoísta. Fora disso se trata mais uma vez da batalha das luzes contra a escuridão. Aos homens, tratados de uma forma mecânica e caricata, principalmente no caso do marido de Sita, quando equiparados aos personagens femininos, cabe boa parte desse obscuridade, embora ela provenha da matriarca. Com relação à própria homossexualidade, ela sugere de certa forma servir involuntariamente como a saída para uma relação heterossexual tradicional, não uma primeira escolha, algo como “já que somos mal amadas por nossos homens, vamos nos amar”. Em termos formais o filme também é bastante precário, embora tal precariedade se ajuste com o ambiente que retrata e com seu caráter de drama realista contemporâneo. De qualquer forma bem superior a Kama Sutra, outra produção pseudo-indiana falada em inglês, também dirigida por uma mulher e também com colorações feministas. Trial By Fire Films. 104 minutos.


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