CONTRA O GOLPE CIVIL EM CURSO E A FAVOR DA DEMOCRACIA

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Filme do Dia: Amor à Flor da Pele (2000), Wong Kar-wai

Amor à Flor da Pele (Fa Yeung Nin Wa, França/Hong Kong, 2000). Direção: Wong Kar-wai. Rot. Original: Wong Kar-wai Fotografia: Christopher Doyle & Mark Lee Ping-bin. Música: Mike Galasso. Montagem e Dir. de arte: William Chang. Com: Tony Leung Chiu Wai, Maggy Cheung, Rebecca Pan, Chen Lai , Chi-ang Chi, Chan Man-Lei, Siu Ping Lam.
       Em Hong Kong, 1962, dois casais mudam-se no mesmo dia para o mesmo prédio de apartamentos. Enquanto a mulher de Chow (Wai) e o marido da Sra. Chan (Cheung) se ausentam por longos períodos, inicia-se uma longa relação de atração entre ambos que, apesar de nunca se concretizar fisicamente, os leva a um estado de dependência afetiva muito forte. Encontrando-se clandestinamente em diversos locais como uma rua,  restaurantes, o próprio prédio em que vivem e o apartamento que Chow aluga, a relação tem um fim com a decisão do mesmo de partir para a Cingapura, incomodado com os boatos a respeito de ambos e aceitando a proposta de emprego acenada pelo amigo Ah Ping (Lam). Algumas tentativas nunca concretizadas de entrar em contato, de ambas as partes, ocorrem no decorrer dos próximos anos, sendo a mais próxima quando Chow retorna a Hong Kong e volta ao prédio onde moraram, sem saber que a Sra. Chan voltara a morar lá, com um filho.
        Kar-wai surpreende pela delicadeza com que narra essa história que ironicamente evoca a tênue linha que separa a tragédia do ridículo nas paixões humanas. Igualmente louvável é o tom profundo e apaixonado com que acompanha o casal protagonista, distante de qualquer sentimentalismo. Ao mesmo tempo demonstra um virtuoso domínio estilístico, unindo elementos audiovisuais de orientação marcadamente clássica, como as belas fotografia, iluminação, música e a magnífica interpretação minimalista dos atores, com outros que são característicos de um já longo histórico de cineastas inovadores como Godard e Spike Lee, como as variadas velocidades na ação do filme, os cortes abruptos e o foco raso. Tais elementos ganham uma dimensão particular, própria ao universo do cineasta. Não menos significativos são os momentos inesperados de ruptura com a narrativa clássica, como os “ensaios” em que o casal protagonista revive momentos que acabara de vivenciar, de outra forma – seja através de uma repetição do diálogo ou dos planos do filme – e os que se referem a si próprios na terceira pessoa. Outro momento de ruptura é o de uma seqüência que se inicia com um primeiríssimo plano de uma lâmpada, enquanto na banda sonora escutamos vozes, desnorteando completamente o referencial de espaço e aparentemente levando a crer que houve um problema com a projeção e, da mesma forma, uma quase tão breve inserção de cenas documentais próximo ao final, apresentando um encontro entre De Gaulle e um líder cambojano. Ainda como comentário irônico sobre o relacionamento o cineasta utiliza-se desde boleros clássicos e de um magistral trabalho de câmera que, em certa seqüência, acentua a pouca distância física que separa o casal, cada qual em seu apartamento. Cineasta do aclamado pela crítica  Felizes Juntos, Kar-wai conseguiu se superar nesse filme que foi indicado para inúmeros prêmios internacionais, na categoria de filme estrangeiro, levando o prêmio de melhor ator em Cannes. Block 2 Pictures/ Jet Tone Production Co./Paradis Films. 98 minutos.


3 comentários:

  1. Há anos consecutivos dominando o topo da lista de filmes mais aclamados pela crítica no século XXI em compilação do site TSPDT.

    O filme parece ter sido feito para pessoas com a sua sensibilidade, já que captou belezas e detalhes que pelo visto eu falhei em valorizar.

    ResponderExcluir
  2. não conheço esse site Gustavo. Vou dar uma conferida. Você não gosta do filme?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Não digo que não gosto. É que simplesmente ele não se comunicou comigo. Tenho resistência a filmes românticos, e mesmo o estilo sedutor e elegante de Kar-Wai não quebrou essa barreira.

      Excluir