Filme do Dia: Tango (1998), Carlos Saura
Tango (Tango, Argentina/Espanha, 1998). Direção e Rot. Original: Carlos Saura. Fotografia: Vittorio Storaro.
Trilha sonora: Lalo Schifrin. Montagem: Julia Juaniz. Dir. de arte: Emilio
Basaldua. Figurinos: Milena Canonero &
Beatriz De Benedetto. Com: Miguel Ángel Sola, Cecilia Narova, Mía
Maestro, Juan Carlos Copes, Carlos Rivarola, Sandra Ballesteros, Oscar Cardozo
Ocampo, Enrique Pinti, Julio Bocca, Juan Luis Galiardo.
Mario Suarez (Sola) pretende levar às
telas um musical que gira em torno do tango. Abandonado pela ex-amante e musa
inspiradora Laura Fuentes (Narova), exímia dançarina de tango que conheceu na
infância que sempre o escolhera como par, apesar de sua evidente limitação,
acaba se apaixonando por Mía Maestro (Flores). Mía é uma jovem aprendiz e
protegida do mafioso Angelo Larroca (Galiardo), um dos produtores do filme.
Resistindo as primeiras investidas de Mario, Mía logo cede, encontrando-se com
ele no palco onde são ensaiados os números que comporão o musical e que Mario
escolheu para viver durante o período da pré-produção. Temendo sofrer
represálias de Larroca, Mía vive a primeira noite de amor com Mario que, por
sua vez, lhe fala sobre os fantasmas da época da ditadura militar, como os
amigos que desaparecem enquanto ele se encontrava exilado. Perturbado por tais
inquietações, Mario insere no musical uma menção explícita aos anos de chumbo
na Argentina, os militares e a tortura. O número é reprovado pelos produtores,
que acreditam que a platéia quer ver entretenimento e não temas áridos. Quando
realiza o ensaio que tem como motivo os operários do capitalismo clássico ao
som da Internacional Comunista, um dos bailarinos finge matar Mía, para o
desespero de Suarez, e conta com um grito de arrependimento fingido por
Larroca. Logo, no entanto, Mía abre os olhos e o filme se encontra no momento
de ser iniciado.
Saura realiza seu All that Jazz, com resultado irregular. Direção de arte, música e
dança são os pontos fortes do filme, sendo todo o enredo, voluntariamente ou
não, não mais que pretexto para as
apresentações musicais. Por um lado tal opção acaba por dar o devido destaque a
exuberância e a riqueza expressiva da dança. Ao final de cada número quase que
esperamos pelos aplausos da platéia. Por outro sua tentativa de ir além disso,
explorando um pouco do universo dramatúrgico do tango em seu próprio enredo
termina com resultados canhestros, sobretudo no lugar-comum dos diálogos e na
pouca verossimilhança das situações de amor. Ainda mais problemático é a
“vanguardista” opção do diretor de optar pela inclusão de elementos políticos
que façam referência ao passado recente da Argentina, que soa ainda mais
forçosa. Talvez tão inserção tenha em vista uma aproximação com a filmografia
do cineasta, marcada por metáforas sobre a condição política da Espanha nos
anos de Franco. Em termos de estrutura, o filme se utiliza de batidos recursos
como a da interação espaço-temporal do protagonista com momentos vividos em sua
infância, já explorado por uma infinidade de cineastas, de Bergman aos IrmãosTaviani, assim como pelo próprio Saura,
com melhor efeito. Também retrabalha a confusão entre realidade e fantasia,
presente em vários de seus filmes. Uma maior coerência entre os números
apresentados, isoladamente fortes, perde-se na lógica tortuosa dos devaneios do
fenomenal egocentrismo do diretor do espetáculo. Resta ainda a inexplicável mudança
de caráter do mafioso, que se torna bom sujeito no final do filme, qual não
seja a de realizar um happy-end. Embora a outra opção, a da morte da heroína,
fosse um exercício metanarrativo ainda menos original. A virtuosidade do trabalho
de câmera e da fotografia de Storaro, assim como do todo visual de afinada
plasticidade, quase nos faz esquecer a superficialidade com que Saura lida com
seu objeto. Beco Filmes/Alma Ata International Pictures/Astrolabio
Producciones/Terraplen Producciones/Adela Pictures/Hollywood
Partners/ASF/Pandora Cinema/Saura Filmes. 115 minutos.
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