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sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Filme do Dia: Ângelo, O Mulato (1950), Francesco De Robertis


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Ângelo, O Mulato (Il Mulatto, Itália, 1950). Direção e Rot. Original: Francesco De Robertis. Fotografia: Carlo Bellero. Música: Anniballe Bizzelli. Com: Renato Baldini, Angelo Maggio, Umberto Spadaro, H. Mohammed Hussein, Bianca Doria, Nino Milano, Giulia Melodini, Jole Fierro.
Filho da mulher de Mattheo (Baldini), violentada por um soldado americano durante a guerra, Ângelo (Maggio) é repudiado por esse que pretende legalmente se desvincular do garoto. O juiz, no entanto, afirma que apenas a cor da pele não é o suficiente para que ele comprove não ser o pai.  Sua mulher morreu durante o parto e o pai na guerra. Inicialmente insensível à criança, Mattheo, após seu parceiro Don Gennaro (Spadaro), encanta-se aos poucos com o garoto, que auxilia na coleta de gorjetas para a dupla. Quando adoece, Mattheo se desespera e reza por sua recuperação. Quando retorna a casa, para sua felicidade, o garoto se encontra bem. Porém, no dia do aniversário de Ângelo  chega um tio seu, irmão do pai morto. A interação entre o garoto e o tio é tão rápida e intensa que não resta a Mattheo aceitar sua partida.
É um pouco deprimente observar que as experimentações em termos de narrativa, incluindo uma das pioneiras interações entre documentário e ficção (Uomini sul Fondo), efetivadas pelo realizador no início de sua carreira descambaram em bem mais intenso e convencional melodrama. Duas ressalvas, no entanto, devem ser feitas. Primeiro, não se trata de um caso isolado, acontecendo em maior ou menor grau com realizadores que se tornariam, por exemplo, vinculados ao neorrealismo, como Giuseppe De Santis e mesmo Vittorio De Sica. Segundo, o filme, talvez cresça um pouco quando pensado sem qualquer vinculação com a obra anterior de De Robertis. Dito isso, é inescapável perceber que as interpretações triviais ou mesmo canhestras e as situações esquemáticas, de evidente busca de efeito manipulativo, em termos emocionais, tornam-se quase tão débeis quanto o ousado esforço  da abordagem de uma temática polêmica (algo que, no entanto, passava a se tornar o apanágio do cinema norte-americano a partir do final dos anos 1940, como demonstra filmes como O Que a Carne Herda, de 1949,   que lida com a questão racial ou A Luz é para Todos, de 1947, com o anti-semitismo). Débeis, no sentido que suas boas intenções e relativo empenho e autenticidade que consegue, talvez sem muito esforço extrair de sua situação dramática esbarram com várias “atenuações” no que diz respeito a elementos centrais. De fato, a relação entre a esposa e o soldado negro não fora consentida e muito comodamente essa além de ter sofrido o estupro morre após o parto, excluindo qualquer possibilidade de conflito direto mais intenso. E, tão ou ainda pior, a sequencia final, com a presença do ótimo e carismático Hussein como tio do garoto, quase um descendente direto do soldado negro na Itália do pós-guerra retratado em Paisà (1946), promove uma virtual aceitação que os, digamos, “instintos raciais” que criam a imediata identidade entre tio e sobrinho, através do sangue, superpõe-se a dimensão cultural e ao afeto dispendido por Mattheo junto ao garoto. O que vem a ser representado, de forma nada discreta, não apenas pela reação imediata do garoto ao jazz como pelo gesto que exime qualquer necessidade de comentário  verbal de Don Gennaro ao separar a única das pedrinhas pretas do grupo das brancas, apartando de forma incisiva os dois grupos. Angelo Scalera Film S.p.a. 99 minutos.