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quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Filme do Dia: A Última Ceia (1976), Tomás Gutiérrez Aléa


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A Última Ceia (La Última Cena, Cuba, 1976). Direção: Tomás Gutiérrez Aléa. Rot. Adaptado: Tomás Gutiérrez Aléa & Constante Diego, baseado no romance de Moreno Fraginals. Fotografia: Mario García Joya. Música: Leo Brouwer. Montagem: Nelson Rodríguez. Dir. de arte: Carlos Arditi. Figurinos: Lidia Lavallet & Jesús Ruiz. Com: Nelson Villagra, Samuel Claxton, Luiz Alberto Garcia, Jose Antonio Rodriguez, Mario Balmaseda, Idelfonso Tamayo, Julio Hernandez.
Em um engenho cubano no século XVIII, um senhor de engenho, apiedado da condição de seus escravos e influenciado pela moral cristã, decide oferecer um lauto banquete para doze deles na noite que antecede a sexta-feira santa, após uma cerimônia do lava-pés em que ele próprio, o Conde (Villagra) já fizera questão de beijar os pés dos escravos.  Durante o banquete, o Conde se embriaga e consegue atender a alguns apelos dos escravos, demonstrando certa resignação e auto-controle até mesmo quando o escravo mais rebelde entre todos, Sebastián (Claxton), cospe-lhe no rosto. Sebastián havia sido capturado de uma fuga no mesmo dia e tido sua orelha amputada pelo rude feitor, Dom Manuel. Entre as “benesses” que o Conde concedeu aos escravos, quando bêbado, estava o direito de não trabalharem na sexta-feira santa. No dia seguinte, no entanto, a situação é outra. Dom Manuel, com ordens do próprio Conde, impõe que eles devem trabalhar. O Padre, angustiado vai reclamar sobre a postura de Manuel junto ao Conde, enquanto uma revolta explode entre os escravos, queimando boa parte do engenho e matando o feitor e sua esposa. No domingo, o Conde lança o marco da nova igreja, com a presença das cabeças mutiladas de 11 dos 12 escravos que participaram da ceia, menos Sebastián, que não foi encontrado.
Esse retrato irônico, complexo e articulado de Aléa sobre a contraposição entre o imaginário cristão e seus limites diante de um sistema econômico escravocrata é um dos marcos da filmografia cubana. A utilização do gênero “filme de época” aqui, como no cinema brasileiro contemporâneo (tal como em Como Era Gostoso o Meu Francês) tem menos intenção de fazer uso de um realismo/naturalismo centrado nos costumes do que abertamente de ser uma alegoria econômico-religiosa. Ao se sentir como o justo cristão, quase um novo Jesus, o Conde logo demonstrará o quanto tais sentimentos não passam de retórica vazia diante dos fatos e necessidades históricas, sendo que justamente aqueles que haviam sido beneficiados por seu “momento humanista, sentimental e cristão” é que serão suas vítimas de seu retorno à “razão. Talvez tal estratégia narrativa tivesse tido ainda maior efeito se todos os escravos houvessem sido mortos e não apresentando um Sebastián livre ao final, como ícone da resistência maior que o próprio sistema, idealismo tipicamente afinado com o discurso de esquerda mas bastante reapropriado por qualquer drama convencional hollywoodiano como Amistad. A divisão entre as convicções religiosas e as necessidades econômicas estão bem representadas na seqüência em que, visitado por um angustiado padre, que afirma que os escravos não poderão trabalhar na sexta santa,  o Conde delega todas as responsabilidades da produção ao feitor, como se aquele agisse com completa independência, ainda que pessoalmente ele fosse contrário a ideia.  Destaque para a longuíssima seqüência da ceia, de estrutura grandemente teatral. E também para a presença no elenco do escritor e dramaturgo Manuel Puig, em aparentemente sua única participação como ator em um filme.  Prêmio do público na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. ICAIC. 120 minutos.


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