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quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Filme do Dia: O Samurai do Entardecer (2002), Yoji Yamada



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O Samurai do Entardecer (Tasogare Seibei, Japão, 2002). Direção: Yoji Yamada. Rot. Adaptado: Yoji Yamada & Yoshitaka Asama, baseado nos romances Tasogare Seibei, Chikkon Shiatsu e Iwaibito Sukebachi. Fotografia: Matsuo Naganuma. Música: Yousui Inoue & Isao Tomita. Montagem: Iwao Ishii. Dir. de arte:  Mitsuo Degawe & Yoshinobu Nishioka. Figurinos: Kazuko Kurosawa. Com: Hiroyuki Sanada, Rie Miyazawa, Nenji Kobayashi, Ren Osugi, Mitsuru Fukikoshi, Miki Ito, Erina Hashiguchi, Reiko Kusamura, Min Tanaka.
No século XIX, o desprestigiado samurai que recebe apenas 50 kokus, Seibei Iguchi (Sanada) tem que lidar com uma esposa doente, uma mãe senil (Kusamura) e duas filhas pequenas. A esposa morre de tuberculose. Com a morte da esposa, Iguchi passa cada vez a ficar mais descuidado com a aparência física, ganhando o apelido de Samurai do Entardecer. Humilde e sem maiores ambições, rejeita tantos postos mais vantajosos quanto propostas de casamento arranjado, sonhando apenas em ser camponês e ver as duas filhas crescerem saudáveis e educadas. A proximidade com uma amiga de infância, Tanoe (Miyazawa), separada após um casamento frustrado com um samurai alcoólatra e agressivo, conquista a simpatia das filhas de Seibei. Esse, surpreendendo o ex-marido de Tanoe a agredindo, aceita um duelo em que consegue vencê-lo sem necessitar matá-lo. Como o vencido tinha fama de bom lutador, o prestígio de Seibei cresce. O irmão de Tanoe e a amigo de Seibei, Michinojo (Fukikoshi), sugere o casamento de Seibei com  a irmã, mas esse rejeita não se acreditando capaz de providenciar uma vida digna para um clã recebedor de 200 kokus. Com as reviravoltas políticas provocadas na Era Meiji, muitos senhores e seus respectivos samurais são incitados a praticar o harakiri. Um dos samurais fiéis a um senhor já morto, o violento Zenemon Yogo (Tanaka), resiste em praticar o suicídio. O clã de Seibei o designa para matar Yogo. Antes de ir ao encontro, Seibei chama Tanoe em sua casa e pergunta se ela o aceitaria em casamento, caso ele sobrevivesse ao duelo. Tanoe, entristecida, afirma que aceitara um pedido de casamento há apenas uma semana. Seibei vence o duelo e se une a Tanoe, para a alegria de suas filhas.
Yamada conseguiu um distinto retrato do ocaso da época dos samurais em que a dimensão da vida doméstica sobrepuja em muito a habitual descrição voltada para batalhas sangrentas e códigos sociais completamente rígidos. Talvez o fato de optar por uma descrição de um período já próximo da dissolução desses valores facilite a operação de criar um protagonista em tudo afinado com os valores morais contemporâneos e considerado, portanto, “exótico” por seus amigos e familiares. Nesse sentido, tanto Seibei quanto Tanoe demonstram um descaso com as convenções sociais da provinciana comunidade na qual vivem. Tanoe, por exemplo, leva as filhas de Seibei para assistirem um festival dos camponeses, prática interdita às famílias dos samurais e chega a ter a consciência de que os samurais só possuem o padrão de vida um pouco mais elevado por conta dos próprios camponeses. Seibei, por sua vez, recusa casamentos arranjados, incita suas filhas a estudarem e decide construir uma união embasada nos sentimentos, desconstruindo e antecipando as próprias relações entre os gêneros. Porém, não se deve esquecer que mesmo fazendo com que seu personagem seja modernizado o bastante para fugir dos padrões da sociedade da época, o filme não deixa de apresentar um protagonista tão virtuoso e hábil na luta quanto os heróis habituais das histórias de samurais. Partindo de uma narrativa grandemente clássica, Yamada segue a perspectiva das memórias da filha de 5 anos de Seibei que narra em off os acontecimentos, sendo a própria narrativa um testemunho da lição de vida deixada pelo pai, morto apenas 3 anos após sua união com Tanoe, longe de cair, no entanto, no sentimentalismo fácil. Com direção de arte, fotografia e elenco impecáveis, ainda que o mesmo não possa ser dito para sua trilha sonora. Hakuhodo Inc./NTV/Sumitomo Corps. Para Shochiku Films. 129 minutos.