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quarta-feira, 29 de março de 2017

Filme do Dia: Os Rapazes da Banda (1970), William Friedkin


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Os Rapazes da Banda (The Boys in the Band, EUA, 1970). Direção: William Friedkin. Rot. Adaptado: Mart Crowley, a partir de sua própria peça. Fotografia: Arthur J. Ornitz. Montagem: Gerald B. Greenberg & Carl Lerner. Dir. de arte: John Robert Lloyd. Cenografia: Philip Smith. Figurinos: W. Robert La Vine. Com: Kenneth Nelson, Frederick Combs, Cliff Gorman,  Leonard Frey, Laurence Luckinbill, Keith Prentice, Peter White, Reuben Greene, Robert la Torneaux.
Para comemorar o aniversário de Harold (Frey), Michael (Nelson) convida todos os seus amigos gays para o seu apartamento, além de um presente para Harold, o jovem garoto de programa caracterizado como cowboy texano (la Tourneaux). O que ele não previa é que um antigo colega de universidade, heterossexual, Alan McCarthy (White), em crise aparentemente conjugal, surgiria inesperadamente. Quando Donald é provocado por Emory (Gorman) o agride. Porém, os conflitos demonstram ir muito além desse momento de destempero. Em um jogo no qual cada um deve ligar para o amor de sua vida, diversas tensões surgem. Dos que foram apaixonados por amigos heteros como Emory e Bernard (Greene) o relacionamento entre Larry (Prentice) e Hank (Luckinbill), em que o último não aceita a relação aberta que o primeiro diz que necessita, pois não consegue viver de outra forma. Michael encoraja Alan a se assumir, pois acredita que ele vivenciou uma relação amorosa com outro rapaz na época em que estudaram juntos. Alan, pelo contrário, liga para sua esposa e diz que está voltando para ela. Enquanto Harold, o aniversariante, é o único que não se envolve com o jogo, acusando Michael de ser mal resolvido com sua própria sexualidade e seu envolvimento com a religião seria um dos maiores sinais. Michael sucumbe a realidade e chora desesperadamente, quando quase todos saem, e apenas fica o amigo Donald (Combs).

Talvez o primeiro filme de circuito comercial a exibir o universo gay norte-americano a partir de dentro, e dirigido por um Friedkin antes de seu reconhecimento nas bilheterias por dois mega-sucessos nos anos seguintes (Operação França, O Exorcista). É completamente devedor de sua origem teatral. E como sua origem teatral parece ser, em grande parte, devedora por sua vez da peça de Edward Albee, não há como imaginar esse filme sem seu antecessor Quem Tem Medo de V. Woolf? (1966). Como naquele, personagens confinados em um ambiente relativamente restrito (aqui ainda mais do que no filme de Nichols, pois toda a ação, com exceção de seu prólogo, em ritmo de videoclipe, ao som da clássica Anything Goes, de Cole Porter, transcorre no apartamento do protagonista) no qual o grupo se afoga no álcool para proclamar as suas verdades, hostilidades e fraquezas, muitas delas pronunciadas em jargões chulos ou compartilhados pela comunidade gay então nascente, quando não ambas as coisas. Pode-se questionar o tom excessivamente pessimista com o que o grupo de amigos se auto-define, mas existe a presença de nuances que o tornam tudo menos homogêneo, assim como uma perspicaz panorama sobre os costumes de um grupo social que anterioremente, assim como na maior parte dos casos posteriormente também (A Gaiola das Loucas, por exemplo), somente seria representado em sua faceta mais trivialmente cômica. Aqui, talvez pese excessivamente o oposto, assim como sua interminável metragem e a dependência excessiva dos diálogos, algo que atores mais experimentados no meio cinematográfico como os do filme de Nichols, conseguiam se sair melhor. O elenco, por sinal, descontadas as restrições acima referidas, encontra-se perfeitamente afinado, com especial destaque para Nelson e Leonard Frey, sendo que  quase todos já haviam vivido os mesmos papéis na versão teatral. Quase todos igualmente não voltariam a ter expressiva participação em filmes e morreria por volta do final dos anos 80 e início da década seguinte, por transtornos ligados a AIDS.  Destaque para o fato do filme não deixar explicitado ao final a sexualidade de Alan e o motivo pelo qual chorava ao telefone. Quanto ao tom excessivamente cinzento, deve-se levar em conta o ambiente ainda bem mais restritivo que apenas começava a tocar em um tema/grupo social ainda grandemente tabu. O fato do filme apresentá-lo sob condições sociais concretas e não apenas enquanto sensacionalismo marginal em relação a trama principal (caso de seus antecessores Tempestade Sobre Washington e Meu Passado Me Condena) é inegavelmente progressista e talvez seja mais consistente do que o comentário auto-depreciativo que marca uma das últimas falas de Michael, a respeito de quão tudo seria melhor se não existisse tanto ódio interior contra sua própria condição. É nessa perspectiva, contextualizando-o historicamente, que o autor do roteiro e peça o defende em O Celulóide Secreto. Cinema Center Films/Leo Films para National General Pictures. 118 minutos.

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