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sexta-feira, 13 de novembro de 2015

The Film Handbook#49: Buster Keaton

Buster Keaton: de acordo com a atriz Louise Brooks "a mais bela face de um homem que jamais vi."

Buster Keaton
Nascimento: 04/10/1895, Piqua, Kansas, EUA
Morte: 31/01/1966, Woodland Hills, Califórnia, EUA
Carreira (como diretor): 1920-29

Joseph Francis Keaton é talvez o maior comediante que o mundo já conheceu. O que talvez seja menos comumente reconhecido é que ele também foi um dos maiores diretores: ao contrário da maior parte dos cômicos, desenvolveu um magistral domínio, aparentemente intuitivo, das possibilidades do cinema, tanto diante quanto por trás das câmeras.

Nascido em uma família do vaudeville, o jovem Keaton aprendeu os aspectos físicos de sua arte desde a tenra idade, educação que lhe serviu bem quando começou a aparecer em diversos curtas de Roscoe "Fatty" Arbuckle no final dos anos 10. Porém com toda sua compreensão do tempo cômico, Keaton parecia frequentemente em desacordo com o pastelão frenético que o cercava e, num par de anos, passou a dirigir seus próprios filmes de dois rolos nos quais se expressava um estilo cômico e visão de longe mais sutil. Curiosamente, a persona de Buster já nasceu completamente desenvolvida: enquanto Chaplin e seus muitos imitadores retratavam o "homem fraco" assediados por gigantes e preconceitos de classe, Buster foi em tudo uma criação menos sentimental. Eternamente sério, silenciosamente digno e profundamente pragmático em seus esforços para sobreviver em um universo caótico e absurdo, Buster raramente recorreu a petulante malícia infantil, gags que funcionavam isoladamente ou controvertidas fantasias heroicas para provocar efeito. Ao invés disso, seu humor crescia do personagem, situação e uma consciência oblíqua da futilidade da vida. A comédia de Keaton, a despeito de sua inventividade brilhante, é frequentemente extremamente sombria: The Goat termina com Buster correndo de um crime que não cometeu; O Enrascado/Cops vai ainda mais longe com Buster, sem nenhuma razão plausível, perseguido por toda a força policial de uma cidade, findando na cadeia. Não é de se espantar que ele pouco sorrisse.

Porém foi com os longa-metragens que o gênio dramático de Keaton fruiu plenamente. As histórias, ao contrário da maior parte de seus contemporâneos, eram emocionalmente complexas e verossímeis, enquanto o personagem de Buster, mesmo consistentemente imbuído de inteligência, persistência e uma dignidade que nunca era inventada, submetia-se a uma quantidade de variações criativas.  Mais impressionante, talvez, era sua incessante exploração e comentários sobre o próprio meio: seu primeiro longa, A Antiga e a Moderna/The Three Ages>1 o apresenta parodiando Intolerância de Griffith com uma visão absurdamente anacrônica da Idade da Pedra e da vida romana na qual o homem das cavernas joga golfe com brutais porretes, a carruagem de Buster é guiada em uma arena nevada por huskies e escravos jogam com dados de videntes,

Nossa Hospitalidade/Our Hospitality>2, por outro lado, foi uma sátira a rídicula hipocrisia dos modos no Velho Sul com o vigarista da cidade, Buster, sendo a vítima inocente da sede de uma família rival por vingança em um feudo de longa data. A honra proíbe que assassinem um hóspede e Buster, a par de seus planos, força-se a permanecer junto de seus inimigos; presunçosamente sombrio, mas a interpretação e direção de Keaton são soberbas. Sua face tal qual uma máscara torna-se um instrumento requintadamente expressivo de simulação em um jogo mortal; a América pré-industrial é evocada através da lírica fotografia, o perigo que subjaz sua hilária prédica sendo transmitido por seu inesquecível final quando salva sua amada de despencar de uma cachoeira.

A autenticidade visual era apenas uma faceta do estilo de Keaton. Na sátira ao filme detetivesco Bancando o Águia/Sherlock Jr.>3, ele revelava sua completa compreensão do cinema como meio plástico: quando o projecionista de Buster sonha se encontrar no próprio filme, ele é tanto ameaçado quanto confundido pela própria montage; esforçando-se para ganhar o domínio de seu tempo-espaço cinemáticos, é transportado dentro de uma fração de segundo de um calmo jardim a uma rua movimentada, de um deserto a uma ilha. Uma análise da ilusão fílmica divertidamente filósofica, a sequencia antecipa Godard em cerca de 40 anos.

Outras obras-primas cômicas se seguiriam: as cenas à bordo em  Marinheiro por Descuido/The Navigator>4, o final sobressaltado de Sete Oportunidades/Seven Chances, os treinos de boxe esplendidamente inaptos em Box por Amor/Battling Butler, e uma perseguição surreal ao final da sátira ao western em Vaqueiro Avacalhado/Go West são particularmente notáveis. Seja parodiando convenções dramáticas ou optando pelo suspense, a obra de Keaton foi consistente em oferecer um mundo plausível, em completa contraposição as elaborações em estúdio de seus colegas. Talvez seu melhor filme em termos de acuidade histórica, A General/The General>5, um filme de perseguição tensamente estruturado durante a Guerra Civil. Aqui, como maquinista, Buster embarca numa jornada épica para recuperar seu motor roubado pelo inimigo, com soberbas locações fotógraficas e uma reconstituição de época grandemente detalhada repetidamente ameaçam (mas nunca, surpreendentemente, conseguem) nos distrair  de seu propósito cômico. O resultado é belo, excitante e muito divertido.  

Ao contrário de Chaplin, a batalha de Keaton não é contra os outros, mas consigo próprio; sua incompetência alienante inicial é mais uma vez transformada através de determinação e senso comum em nada mais que  uma habilidade em fazer parte da sociedade. De forma notável, na obra de Keaton as mulheres nunca são divinizadas de forma paternalista,  mas observadas como outro sintoma do desejo de Buster de fazer contato com a humanidade. Em Amores de um Estudante/College>6, o traça de livro Buster ganha a garota em seu próprio jogo, descobrindo sua própria natureza física. E em O Vapor Willie/Steamboat Bill Jr.>7 a confusão psicológica que emerge das tentativas malsucedidas de Buster de fazer jus as expectativas de seriedade de um pai machão é brilhantemente simbolizada por um ciclone; numa assombrosamente criativa e perigosa gag, ele sai de um prédio e uma parede inteira cai sobre ele. Ele sobrevive, já que uma porta havia livrado sua cabeça e ombros por polegadas.

Mesmo com todo o seu gênio, a carreira de Keaton teve uma reviravolta para baixo. Uma mudança para a MGM limitou sua liberdade criativa, ainda que O Homem das Novidades/The Cameraman>8, com seu hilariante compêndio de erros cinematográficos, frequentemente demonstra a mesma fertilidade inventiva de Sherlock Jr. e O Noivo Cara-Dura/Spit Marriage possui momentos dispersos de engenhoso brilho cômico. No entanto, o fim de um casamento, o alcoolismo e um reduzido senso de negócios assegurou que Keaton fosse reduzido a décadas de pontas sombrias e escrever gags para outros talentos menores. Essa situação de desperdício trágico durou até poucos anos antes de sua morte quando, para muito do evidente encantamento de Keaton, suas obras-primas foram revividas para um público amplo e aclamação crítica.

Keaton é grandemente lembrado como O Grande Rosto Inflexível, descrição tristemente inadequada de seus profundos e expressivos olhos. Mas uma ainda maior façanha foi sua habilidade, como diretor,  de transcender as tradições do vaudeville e da comédia pastelão. Seu apelo ao público moderno pode residir em sua soturna e absurda visão do mundo, ainda que sua qualidade artística e humor permaneçam atemporais.


Cronologia
Enquanto outros comediantes mudos seguiam Chaplin (em cujo Luzes da Ribalta Buster faz uma ponta) Keaton influenciou cômicos posteriores como, mais notavelmente, Tati e Woody Allen.Ele teve papel central em Film, de Samuel Beckett, enquanto incorporação simbólica da consciência existencial, enquanto Wilder e Lester prestaram seus tributos a ele ao o escalarem em, respectivamente, Crepúsculo dos Deuses/Sunset Boulevard e Um Escravo das Arábias em Roma/A Funny Happened on the Way to the Forum.

Leituras Futuras
Buster Keaton (Londres, 1969), de David Robison, The Silent Clows (Nova York, 1975) de Walter Kerr. Keaton (Nova York, 1966), de Rudi Blesh e Keaton: The Man Who Wouldn't Lie Down (Nova York, 1979) de Tom Dardis são biografias.

Destaques
1. As Três Idades, EUA, 1923 c/Keaton, Wallace Beery, Margaret Leahy

2. Nossa Hospitalidade, EUA, 1923 c/Keaton, Joe Roberts, Natalie Talmadge

3. Bancando o Águia, EUA, 1924, c/Keaton, Kathryn McGuire, Joe Keaton

4. Marinheiro por Descuido, EUA, 1924 c/Keaton, Kathryn McGuire, Frederick Vroom

5. A General, EUA, 1927 c/Keaton, Marian Mack, Glen Cavender

6. Amores de um Estudante, EUA, 1927 c/Keaton, Ann Cornwall, Harold Goodwin

7. O Vapor Willie, EUA, 1928 c/Keaton, Ernest Torrence, Marion Byron

8. O Homem das Novidades, EUA, 1928 c/Keaton, Marceline Day, Harold Goodwin

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 146-9.

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