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quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Filme do Dia: Fausto (2011), Aleksandr Sokurov


Fausto (Faust, Rússia, 2011). Direção: Aleksandr Sokurov. Rot. Adaptado: Aleksandr Sokurov & Marina Koreneva, a partir da obra de Goethe e do livro de Yuri Arabov. Fotografia: Bruno Delbonnel. Música: Andrey Sigle. Montagem: Jörg Hauschild. Dir. de arte: Yelena Zhukova. Figurinos: Lidiya Kryukova. Com: Johannes Zeiler, Anton Adasinsky, Isolda Dychauk, Georg Friedrich, Hanna Schygulla, Antje Lewald, Florian Brückner, Sigurour Skúlason.
Heinrich Faust (Zeiler) aceita a corrupção do proprietário de terras (Adasinsky) que o leva para uma jornada pela própria vila e seus moradores, tentando fazer com que Heinrich os observe com outros olhos. Em meio a essa jornada, Heinrich se interessa fortemente por Margarete (Dychauk). É a partir dessa sua fraqueza pela garota que o proprietário irá aos poucos se apoderar da alma de Faust, ao mesmo tempo sendo o canal para a expressão de seus desejos,  o que resultará em tragédias como a morte do irmão de Margarete e de sua mãe.
Sokurov, como era de se esperar, apresenta uma adaptação que é tudo menos óbvia. O périplo que Mefistófeles leva Fausto a rever as pessoas da cidade sob uma nova perspectiva, inusitada e pouco condescendente ganha uma parcela de sua generosa metragem que somente se centra na história de amor bastante tempo após, praticamente de onde se inicia a até hoje mais célebre adaptação para o cinema, empreendida por Murnau em 1926 – e brevemente referida aqui em seus planos iniciais. À bravura visual do filme, o que inclui seus impecáveis figurinos, fotografia e direção de arte, algo compartilhado com a filmografia do cineasta se acrescenta, com grande auxílio dos mesmos,  a tampouco incomum atmosfera semi-onírica, em que absurdo e fantasia andam de braços dados, como é o caso, dentre outros momentos, do que Mefistófeles se revela desnudo enquanto ser inumano. Como em outras produções do cineasta o momento de encantamento amoroso merece um destaque visual. Se em Pai e Filho ele se dá a partir do uso original de um recurso tão trivial como o plano/contraplano, aqui deriva da utilização de filtros, iluminação e efeitos digitais que transformam radicalmente os rostos do casal. Do mesmo modo, a contraposição entre momentos de uma relativa compreensão dos eventos descritos com outros nos quais predomina o aberto e incerto tateio, auxiliado por sua composição visual e por diálogos que menos pretendem esclarecer que o oposto. Faz  não apenas parte do jogo de criação atmosférico do realizador, como é mesmo seu coração, sua marca autoral e certamente irá provocar impaciência no espectador menos prevenido. Último filme da tetralogia do realizador sobre o poder enquanto fonte corruptora que compreende Moloch, Taurus e O Sol. Uma possível evocação bíblica ao Tarkovski de O Sacríficio (1985), surge no momento em que o protagonista exclama: “No ínicio era o verbo”. Uma das fontes de adaptação para o filme foi o livro do habitual colaborador de Sokurov, como roteirista, Arabov. Leão de Ouro no Festival de Veneza. Proline Film. 140 minutos.


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