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segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Filme do Dia: L'Acadie, L'Acadie (1971), Pierre Perrault & Michel Brault

L’Acadie, L’Acadie (Canadá, 1971). Direção: Pierre Perrault & Michel Brault. Fotografia: Michel Brault. Música: Valérie Blas & Majorique Duguay. Montagem: Monique Fortier.
No final dos anos 60, um grupo de estudantes francófilos decide não se resignar pelo que acreditam ser o imperialismo da cultura anglófila, assim como seus consequentes benefícios e discriminações na província de New Brunswick. O documentário observa a partir desse contexto um grupo de estudantes da Universidade de Moncton, muitos deles identificados com a cultura acadiana, associada a preservação dos valores francófilos e de dimensão abstrata-utópica, em grande medida. Dentre as cenas mais tensas registradas no documentário se encontram as imagens (compiladas de um canal de TV) de um processo no qual os estudantes são intimados na prefeitura e não podem se manifestar em francês, porque os juízes da corte não compreendem o francês. Os estudantes, a partir da própria realidade opressora na qual vivem – mesmo a população de origem francesa correspondendo então a 40% do conjunto da população de New Brunswick, item, inclusive, negado por um dos juízes – não levam a sério a propaganda de se tratar de um país de cultura bilíngue, assim como a referência a província como um exemplo de coexistência pacífica entre francófilos e anglófilos declarada pelo então líder Pierre Trudeau. Outro grande momento de tensão é quando numa uma conferência com a presença dos dois grupos, um grupo mais idoso se levanta e começa a cantar o hino britânico, sendo seguido algum tempo depois por Auld Lang Seine pelos estudantes francófilos. Uma das alegações dos estudantes é da parca quantidade de verbas para a sua universidade, enquanto na Universidade de New Brunswick, inglesa, a realidade é outra. Por fim, um momento final de tensão se dá quando os estudantes decidem invadir um setor do campus da universidade de Moncton. E frente a provável retirada à força pelos policiais, decidem sair pacificamente. Esse momento, confrontado com as imagens bem mais violentas dos protestos estudantis norte-americanos da época, serve igualmente como um marco na desmobilização do movimento, com a dispersão do grupo de amigos mais atuantes e líderes das manifestações e o fim do sonho, registrado sobretudo a partir da perspectiva de uma garota, cuja visão amargurada, com a partida dos amigos para destinos diferentes, um dos quais se considerando praticamente expulso da universidade, serve como um contraponto para os vários momentos de vibrante energia e comunhão observados ao longo do documentário.  Nesse momento de reflexão final, a garota chega a exclamar que a Acádia talvez não seja nada mais que “um mero detalhe”, sendo que ouvimos logo após uma das poucas manifestações de Perrault preservadas na banda sonora, afirmando ironicamente, “então realizamos um filme sobre um detalhe?” Como nos filmes de ficção, para que o contraponto as lutas e bravatas estudantis seja mais agudizado ao final, insere-se alguns momentos nos quais os próprios surgem em momentos de descontração falando sobre si, a pesada herança religiosa recebida, a emancipação da mesma ou as perspectivas futuras. Nunca anteriormente, provavelmente, o cinema de Perrault esteve tão próximo de algumas marcas do cinema direto norte-americano, mesmo que muitas artíficios estranhos a esse surjam. O filme é ritmado por seções que são divididas a partir de singelos planos com papel recortado, contendo os nomes dos segmentos. Office National du Film du Canada. 117 minutos.


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