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domingo, 8 de novembro de 2015

Filme do Dia: Ela (2013), Spike Jonze

Ela (Her, EUA, 2013). Direção e Rot. Original: Spike Jonze. Fotografia: Hoyte Van Hoytema. Música: Arcade Fire. Montagem: Jeff Buchanan & Eric Zumbrunnen. Dir. de arte: K.K. Barrett & Austin Gorg. Cenografia: Gene Serdena. Figurinos: Casey Storm. Com: Joaquim Phoenix, Amy Adams, Chris Pratt, Rooney Mara, Scarlett Johansson, Matt Letscher, Olivia Wilde, Luka Jones.
Theodore (Phoenix) é um escritor solitário, vivenciando o trauma da recente separação de sua mulher, Catherine (Mara), quando se depara com um sistema operacional que passa a organizar não apenas sua agenda, mas também se auto-denomina Samantha (Johansson) e que se torna cada vez mais íntima dele, expressando uma atenção e sentimentos que lhe seduzem. Theodore se apaixona pelo sistema operacional. Sua amiga, que vivencia o recente luto da separação, Amy (Adams), também se torna grande amiga de um sistema operacional. Ainda que o sistema seja programado a não entrar em confronto com seu usuário, Samantha toma decisões próprias, algumas delas não exatamente bem acolhidas por Theodore, como a de incluir uma terceira “pessoa” (Wilde) na relação. Aos poucos seu envolvimento e dependência emocional se tornam crescentes. Ao se encontrar com Catherine para efetivar o divórcio e afirmar para ela se encontrar em relação com um sistema operacional, essa afirma que ele nunca conseguira, de fato, encarar uma relação com uma mulher, com todas as suas implicações. Ele entra em parafuso quando o sistema sai de operação. Depois descobre que ela estava se reatualizando e que não opera somente com ele, mas com centenas de outros clientes. Mesmo chocado e decepcionado, não consegue abandonar seu uso. Certo dia, porém, Samantha afirma que todos os sistemas OS irão desaparecer. É o que ocorre. Theodore vai ao encontro de Amy, que também afirma o desaparecimento do seu.
Mesmo partindo de uma premissa inteligente, original e instigante no que diz respeito à crescente interatividade com universos virtuais da sociedade contemporânea, o filme (do realizador do excelente Quero ser John Malkovich) é prejudicado por sua excessiva dependência da situação proposta, extraindo praticamente todo seu potencial cômico das situações de paralelismo com uma relação afetiva convencional que são dispostas (encantamento, sexo,  paixão,  traição, propostas de sexo não convencional para evitar a monotonia, revelações surpreendentes, etc.). O fato da trama se passar numa Los Angeles algo vagamente futurista, construída a partir do recorte de diferentes cidades, mas sobretudo virtualmente elaborada, tampouco auxilia, mesmo tendo como fim a subjugação a um padrão de rala interatividade humana e crescente interação com dispositivos tecnológicos. Ao apresentar seu protagonista como uma espécie de burocrata desse novo mundo, em que os sentimentos parecem algo a ser conquistado a duras penas, trabalhando numa empresa onde redige cartas para pessoas há anos, a impessoalidade de seu serviço e seu anonimato entre outros que fazem o mesmo apresentado logo ao início não deixa de remeter a uma atualização de A Turba (1928), de King Vidor. Em seu centramento em si próprio, Theodore – e, consequentemente, as situações de humor que são projetadas a partir dele – também é evocativo dos alter-egos criados em ambientes mais ortodoxos por Woody Allen. Em nenhum momento, no entanto, o filme acena de forma mais concreta para o motivo da crescente afasia de seu personagem, que acredita já ter vivido todos os seus momentos mais intensos. Esses, por sua vez, são retratados através de flashbacks tão anódinos quanto o de qualquer filme romântico banal de uma sessão da tarde. É muito pouco para que se crie real interesse pelas demandas de sua fantasia, assim como da fantasia mais ampla desse novo mundo posto pelo filme. Algo que se torna ainda mais problemático por sua longeva extensão, ou ao menos assim sentida em termos de ritmo, que parece antecipar vários falsos finais. Torna-se implícito que a afasia sentida por Theodore e Amy é produto de uma sociedade crescentemente individualizada. Sendo que a busca para a fuga dessa perda de contato emocional com os outros aprofunda ainda mais a individualidade da qual se quer fugir. Como não se tem medida mais ampla do que ocorre em termos sociais, algo sonegado tanto em termos de construção visual, com planos demasiado fechados e uso de planos abertos com flu, apenas se tem um indicativo que as relações com sistemas operacionais começam a se tornar frequentes, mas longe de ser a forma predominante de sociabilidade. Trata-se, portanto, de uma distopia que, de forma pouco usual, não apresenta uma situação por atacado, mas seu efeito de forma mais localizada. Porém, que o efeito provocado nos dois personagens que o filme se atém são grandemente induzidos pelo mundo mais amplo, não resta dúvida. E, em alguns momentos, o filme apresenta isso de forma algo didática, seja quando se observa a maioria das pessoas interagindo com seus celulares à saída do metrô, seja apresentando a vulnerabilidade de Theodore sentado e prestes a ser quase virtualmente capturado pela gigantesca águia que surge na tela por trás dele. Seu previsível final tão melancólico quanto seu desenrolar, acena para um retorno mais efetivo entre as relações humanas mais por imposição do que propriamente opção. Algo que é proveniente, inclusive, de uma intervenção no estilo Deus Ex Machina: por algum motivo, os sistemas operacionais deixarão de funcionar. Annapurna Pictures para Warner Bros. 126 minutos.

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