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sábado, 28 de novembro de 2015

Filme do Dia: A Canção de Lisboa (1933), de José Cottinelli Telmo



A Canção de Lisboa (Portugal, 1933). Direção e Rot. Original: José Cottinelli Telmo. Fotografia: Henri Barreyre & César de Sá. Música: René Bohet, Raul Ferrão, Raúl Portela & Jaime Silva Filho. Montagem: Tonka Taidy. Com: Vasco Santana, Beatriz Costa, Antônio Silva, Teresa Gomes, Sofia Santos, Alfredo Silva, Eduardo Fernandes, Manoel de Oliveira.
Vasco (Santana) é um acadêmico de medicina, bon vivant, e que nunca passa nos exames e se fia na herança das velhas tias solteironas (Gomes e Santos) para se casar com a sua pretendente, Alice (Costa), filha do alfaite Caetano (Silva). A súbita visita das tias a Lisboa põe a perigo todas as mentiras inventadas por Vasco para que elas o mantivessem por lá. Vasco pretende contar com a ajuda do futuro sogro para se fazer passar por médico reconhecido. As tias, porém, descobrem a verdade e Alice resolve romper com ele. Na amargura, Vasco resolve se embriagar e solta a voz cantando fados em um bar, fazendo extraordinário sucesso. A partir daí ele inicia uma carreira de relativo sucesso que  interrompe para finalmente fazer o exame e ganhar seu título de doutor e casar com Alice.
Com todas suas evidentes limitações, essa farsa consegue apresentar qualidades raramente ou não encontradas de todo no cinema brasileiro do período. Ainda que a maior parte das piadas soe por demais caricatas ou ingênuas para serem de fato efetivas, há um leve senso de humor, mais interessante que o da representação física dos atores, nos diálogos e até mesmo em algumas tiradas visuais. Telmo consegue conjugar, em alguma medida, um senso de ingenuidade que tampouco deixa de fora a malícia e a sensualidade, com destaque para uma heroína plenamente sexuada, inclusive se evadindo do noivo para dançar com um rapaz que lhe atrai a certo momento e que remete muito distantemente ao uso de tais estratégias de modo mais talentoso por um Renoir ou – e principalmente – Vigo. Beatriz Costa certamente mereceria ter trabalhado com ambos. Sua apaixonada e ao mesmo tempo coquete Anita possui algo da mescla entre docilidade infantil e brejeirice que lembra, no cinema mudo,  Louise Brooks. Vasco Santana empresta a seu personagem um naturalismo ainda muito distante de se realizar no cinema brasileiro da  época, cujas interpretações são bem mais empostadas ou teatrais.  Por outro lado, o fato de populares e transeuntes sempre observarem suas trapalhadas parece se encaminhar justamente no sentido oposto. Entre suas tiradas há uma referência jocosa ao Estado Novo então recém-instituído que aparentemente passou despercebida pelos censores. Vasco prega um anúncio de um casaco em “estado novo” nas costas de uma velha senhora que aparecera na loja e que se vai, levando juntamente o anúncio. Em vários momentos o filme faz uso de um recurso de montagem relativamente incomum no qual a continuidade é incisivamente efetuada mesmo a partir de um novo enquadramento. Seu prólogo apresenta imagens “pujantes” de Lisboa, em corte seco,  mesmo que em estilo bastante diverso a da mais célebre das “sinfonias urbanas”, Berlim, Sinfonia de uma Metrópole.  É Lisboa apresentada a  partir da canção-título. A trilha sonora, também presente enquanto canção – o filme  possui seu momento musical, ainda que relativamente integrado dentro das situações do enredo – sem dúvida é fundamental para a atmosfera pretendida.  O personagem de Vasco poderia muito bem ter servido como matriz para o protagonista do filme de Roulien, Aves sem Ninho (1939), igualmente um acadêmico de medicina fanfarrão, caso não fosse o último uma adaptação do teatro. Torna-se algo cruel a comparação, entretanto, para o brasileiro Celso Guimarães.  Manoel de Oliveira, que ainda não havia iniciado sua longeva carreira como cineasta, surge aqui como ator. Tobis Portuguesa. 85 minutos.


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