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terça-feira, 15 de abril de 2014

Filme do Dia: Homens e Deuses (2010), Xavier Beauvois

Homens e Deuses (Des Hommes et des Dieux, França, 2010). Direção: Xavier Beauvois. Rot. Original: Etienne Comar & Xavier Beauvois. Fotografia: Caroline Champetier. Montagem: Marie-Julie Maille. Dir. de arte: Michel Barthélémy. Com: Lambert Wilson, Michael Lonsdale, Olivier Habourdin, Philippe Laudenbach, Jacques Herlin, Loïc Pichon, Xavier Maly, Jean-Marie Frin, Farid Larbi.
Um grupo de monges trapistas franceses que possui forte convivência com a comunidade local de um vilarejo argelino, vê-se subitamente confrontada com o risco eminente de ser massacrado ou se tornar refém de extremistas muçulmanos. Tendo uma relação completamente pacífica com os moradores locais, a quem prestam serviços de assistência médica através de Luc (Londsale), o grupo é liderado por Christian (Wilson), que decide pela permanência do grupo no local, mesmo após o acirramento dos ânimos. A decisão, longe de contemplar o interesse de todos inicialmente provoca divisão no grupo, sobretudo no caso de um deles , o mais revoltado com a situação. Na noite de natal, eles são visitados por um grupo de terroristas que desejam remédios para alguns membros feridos. Christian reage firmemente e  o grupo, liderado por Ali Fayattia (Larbi), inesperadamente recua. Aos poucos, em meio a muitas dúvidas, todo o grupo decide permanecer unido. Posteriormente Christian será levado pelo exército para reconhecer o corpo de Fayattia. Mesmo recebendo mais de uma vez o alerta do corrupto exército local, que se encontra desconfiado do envolvimento deles com os terrorista, o grupo decide permanecer. Certa noite são seqüestrados por um grupo terrorista que pretende trocá-los por militantes aprisionados e executados, a exceção de dois que conseguem escapar da operação.
Beauvois evidentemente bebe na influência de Bresson (sobretudo em seu Diário de um Pároco de Aldeia, evocado nos momentos em que Christian redige seu diário), responsável por alguns dos filmes mais talentosos do recente cinema francês (caso de A Vida de Jesus, de Dumont). Mesmo que sua dívida para com Bresson se reflita igualmente em termos formais, na relativa ascese com que todo o drama é apresentado, assim como nas intervenções em voz over de seu protagonista e na recusa da utilização da trilha sonora, uma aproximação mais convencional dos elementos dramáticos se faz presente. Caso do momento em que todos os frades acabam concordando em permanecer, um tanto clichê e déjà vu. Noutros momentos, aparentemente ainda mais convencional em termos dramáticos, como é o caso do momento em que todos escutam silenciosamente O Lago dos Cisnes, Beauvois tira partido das expressões faciais e da “fidelidade” a um momento continuado de tempo,  ao longo da duração do mais célebre movimento da peça de Tchaikovski. A música, intensa e melodramática acaba se chocando com a inflexão relativamente contida das interpretações, provocando um momento em que a intensidade não descamba para o sentimentalismo fácil. Beauvois praticamente drena qualquer informação mais precisa sobre o contexto político em que a região se encontra envolvida e que gerou tal ódio. Opção acertada para os propósitos que busca, de transcendência do “espírito humano” diante da adversidade do mundo concreto. O fato de Beauvois tomar a liberdade de fazer isso a partir de figuras históricas reais, decantando-as praticamente de qualquer tom desrespeitoso, mesmo nas situações mais triviais, talvez soe algo problemática. Ao contrário de Dumont e Bresson,  ou mesmo de, por outro viés, Pasolini, não se parte da observação do que existiria de “sagrado” nas figuras onde menos se associaria tal dimensão. Intercalado por cânticos dos frades, desnecessário se faz os créditos que confirmam a morte dos frades e o destino dos dois sobreviventes, assim como a estranha referência ao fato de nunca ter sido provada a motivação do seqüestro, quando o próprio filme já explicitara os propósitos da ação. O caso já havia sido tematizado pelo documentário para a TV Le Testament de Tibhirine (2006). Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes. Why Not Prod./Armada Films/France 3 Cinema para Mars Distribution. 122 minutos.


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