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quarta-feira, 30 de abril de 2014

Filme do Dia: O Silêncio (1998), Mohsen Makhmalbaf

O Silêncio (Soukut, Irã/França/Tadjiquistão, 1998). Direção: Mohsen Makhmalbaf. Rot. Original: Mohsen Makhmalbaf. Foto: Ebrahim Ghafori. Montagem: Mohsen Makmalbaf. Elenco: Golbibi Ziadolahyeva, Nadereh Normatova, Nadereh Adedelagyeva, Hakem Ghassem, Araz M. Mohamadli.
     Korshid (Ziadolahyeva) é um garoto cego que sustenta a mãe (Adedalagyeva), com a sensibilidade de seu ouvido musical e sua grande capacidade sensitiva, trabalhando como afinador de instrumentos, talento que também é explorado na hora em que vão ao mercado fazer as compras. Mesmo auxiliado por uma amiga (Normatova), Korshid,  no entanto, acaba por ter seu chefe contra ele por dois motivos: os clientes reclamam da qualidade da afinação dos instrumentos e Korshid quase sempre chega atrasado ao emprego. O último motivo se deve ao fato de que Korshid sempre se distrai seguindo uma bela voz feminina ou algum músico que toque belas melodias nos ônibus que pega para ir ao trabalho ou ainda os trabalhadores que consertam panelas próximo ao seu trabalho. Ao mesmo tempo que suas relações com o chefe indicam que este o despedirá em breve, sua mãe vem recebendo ameaças de que será despejada pelo senhorio, pelo atraso do aluguel. Korshid é efetivamente despedido, enquanto sua mãe se encontra na expectativa de que ele receba um aumento. Tentando não perder o local de moradia, ele vai com sua amiga procurar o músico que o fizera distrair sua atenção pela última vez, explicando os motivos e tentando fazer com que se sinta culpado pela sua demissão e despejo. Porém, ainda que sensibilizado com a situação do garoto, o músico afirma que não possui nada além de sua própria música. E toca com amigos, enquanto a mãe de Korshid é despejada. Sem emprego ou local para morar, Korshid rege um grupo de trabalhadores que consertam panelas.
       Mesmo que possa ser considerada como uma metáfora política sobre a situação de censura e repressão no Irã - sobretudo em momentos como o que Korshid caminha com sua amiga e esta lhe admoesta que precisam procurar outro caminho porque um homem se encontra armado ameaçando mulheres que andam sem véu - o filme também não descarta outras, talvez até mais interessantes, representações. Uma delas segue a tradição do filósofo Epicuro, que furou os olhos ao acreditar que o universo dos sentidos era um entrave para a melhor compreensão do mundo - presença constante no filme, especialmente na cena em que Korshid, por experiência própria ao tapar constantemente os ouvidos, ensina a duas meninas no ônibus que devem tapar a vista para apreenderem com maior facilidade o que tentam decorar, o que ela já havia conseguido apenas ouvindo-as. Porém tal desconfiança nos sentidos se apresenta, ao mesmo tempo, paradoxal, já que embora faça  com que, por exemplo, compre um pão seco influenciado pelo toque no rosto da vendedora de pele macia,  também lhe proporciona o prazer de ouvir os acordes musicais que o elevam do meramente cotidiano. Aliás o motivo da demissão é decorrente justamente de dois motivos que apenas reforçam a paradoxalidade da recusa dos sentidos: por um lado calcada no distraimento de Korshid ao seguir os sentidos, que faz com que chegue atrasado ao emprego; por outro, baseado na sua recusa desse distraimento, que faz com que igualmente recuse toda manifestação exterior na sua afinação dos intrumentos que não siga sua intuição interior, e que resulta em não afinar os instrumentos segundo o padrão exigido. Aqui o versátil Makhmalbef, que teve que realizar este filme fora do Irã, se apresenta menos hermético que em Gabbeh, não recusando de todo uma narrativa mais tradicional, característica ainda mais vísivel em Um Instante de Inocência. A seqüência final, grandemente incógnita, talvez aponte para uma redenção e superação da miséria material através da arte. Makhmalbaf Productions/Martin Karmitz. 87 minutos.

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