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domingo, 27 de abril de 2014

O Feitiço da Ficção


Macondo correu o mundo com Cem Anos de Solidão, mas o povoado mítico surgiu antes, em pelo menos uma novela e um conto de García Márquez. Na verdade, Macondo já existia em estado latente na imaginação e nas fantasias do jovem Gabo, que levou muitos anos para armar e escrever o romance latino-americano mais lido de todos os tempos.
Em livros anteriores, principalmente nos relatos Ninguém Escreve ao Coronel e O Veneno da Madrugada (La Mala Hora), é visível a influência de Hemingway no modo objetivo e relativamente simples de narrar uma ficção a partir de uma experiência pessoal. Mas em Cem Anos de Solidão, Márquez amplia e aprofunda os temas e motivos de toda a sua obra anterior, e o resultado disso é um romance de grande envergadura social, política e histórica. Nele, há várias camadas históricas e simbólicas que dizem muito sobre a América Latina, com seus dilúvios e catástrofes políticas durante um tempo longo de tragédias cíclicas, que abarca a fundação mítica de Macondo na época colonial, as lutas pela independência, o "bogotazo" de 1948 e o posterior período de violência política na Colômbia.
Às vezes, essa leitura histórica é ofuscada pela sintaxe exuberante do estilo, pelo exotismo e o pitoresco excessivos, pela fantasia e imaginação solta de um modo de narrar, que deve muito ao romanesco. Nesse tipo de narrativa, que Machado de Assis não apreciava, as personagens passam por metamorfoses incríveis e podem ser aparentadas com deuses, anjos e demônios.
A literatura romanesca vem de muito longe, das narrativas épicas, em que a contingência da vida cotidiana é conduzida ao miraculoso e encontra seu extremo no mito. García Márquez recorreu a essa tradição épica, às novelas de cavalaria, à magia dos contos das Mil e Uma Noites, ao Diário do Ano da Peste, de Daniel Defoe e, mais próximo do nosso tempo, ao romance Orlando, de Virginia Woolf. Na nossa literatura, Macunaíma é um admirável personagem romanesco que morre, renasce e se metamorfoseia ao longo da rapsódia de Mário de Andrade. Numa perspectiva mais próxima do fantástico, são também notáveis os personagens mortos-vivos de Incidente em Antares, de Erico Verissimo.
Para a compreensão da literatura, o soco que Vargas Llosa deu no rosto de García Márquez é irrelevante. Agressões físicas ou verbais, e acirrados embates ideológicos estão destinados ao esquecimento. Muito mais importante é o livro Historia de Un Deicidio (1971), um exaustivo estudo de Llosa sobre a obra de Márquez e suas filiações literárias.
Numa conversa com o escritor peruano, Márquez revela sua admiração pela "extraordinária capacidade de artifício verbal de Borges", um dos autores que ele mais leu. No entanto, foi muito impreciso quando afirmou que o escritor argentino, "ao trabalhar sobre realidades mentais, é pura evasão..."
Cada escritor inventa uma ficção a partir de um modo muito particular de ler certos livros, e de ver e sentir a realidade. Penso que a literatura de Borges não é pura evasão, nem se limita a construir labirintos circulares e elaborar indagações metafísicas. Na verdade, ela mantém uma relação profunda com a história da Argentina e de outros países, mas raramente essa relação é explícita ou se deixa ver com facilidade. É provável que Márquez tenha sido uma vítima privilegiada de uma grande ironia: o mais famoso escritor do nosso continente leu a obra de Borges como muitos europeus, norte-americanos e até mesmo latino-americanos a leram. Esses leitores não perceberam o conteúdo histórico da poesia e da prosa borgiana. É quase certo que essa armadilha também fizesse parte do jogo ardiloso do autor de obras-primas como Ficções e O Aleph.
As narrativas de Borges, urdidas por um narrador intelectual, certamente não alcançaram o enorme público de García Márquez. Mas para os que gostam de literatura, a obra dos dois escritores é capaz de enfeitiçar leitores de todas as latitudes.

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