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quarta-feira, 16 de abril de 2014

Filme do Dia: Alice nas Cidades (1974), Wim Wenders



Alice nas Cidades (Alice in den Städten, Alemanha Ocidental, 1974). Direção: Wim Wenders. Rot. Original: Veith von Fürstenberg. Fotografia: Robby Müller. Montagem: Peter Przygodda. Com: Rüdiger Vogler, Yella Rotlländer, Lisa Kreuzer, Edda Köchl, Ernest Boehm, Sam Presti, Lois Moran, Didi Petrikat, Hans Hirschmüller.
Phil Winter (Vogler) é um alemão viajando pelos Estados Unidos que, quando decide retornar para Alemanha, vê-se forçado a permanecer em Nova York, e se aproxima de uma mãe (Kreuzer) e sua filha, Alice (Rotlländer). No dia seguinte, há um recado da mãe, pedindo que ele viaje com Alice para a Europa. Phil apenas consegue passagem para a Holanda. De lá, como a mãe de Alice não dá mais notícias, viaja pela Alemanha em busca da casa de sua avó. Phil desiste no meio do caminho e a deixa com a Polícia. Depois, muda de idéia e volta a viajar com a garota, agora para o Vale do Ruhr, única referência que ela possui. Quando Phil viaja de encontro a seus pais volta a encontrar o policial (Hirschmüller) que se encontra a procura de Lisa. Enquanto o policial se encontra distraído, Phil e Alice embarcam em um trem.
Na melhor fase de sua carreira, Wenders apresenta personagens sem rumo e nem identidade estabelecida que vagam a esmo por paisagens à margem de rodovias, tal como em seu melhor filme, No Decorrer do Tempo (1976). Aqui, de alguma forma essa angústia existencial ainda é contrabalançada pela figura da criança. Como em seu filme posterior, igualmente se percebe uma sede de realismo fenomenológico nas imagens que também era compartilhado por outros cinemas novos contemporâneos (no brasileiro, notadamente em Iracema - Uma Transa Amazônica). Isso fica muito patente quando o protagonista, por exemplo, afirma que os filmes nunca mostram as coisas como elas realmente são, e o filme e apresenta uma Nova York  para além de ícones da cidade (o Shea Stadium) também toda uma feiura e senso de cotidIano geralmente ausentes dos próprios filmes americanos. E mesmo tais ícones são apresentados de um modo completamente desglamourizado. A errância de Phil (por si só um nome americanizado) não apenas remete à tradição do herói do faroeste (e a conseqüente homenagem ao então recentemente falecido John Ford, maior nome do gênero, seja através de um trecho de A Juventude de Lincoln na tv ou de seu obituário no jornal) quanto a própria aproximação ambivalente e descendente com relação à cultura pop americana, também onipresente na trilha musical. Como no cinema novo brasileiro há igualmente uma representação grandemente negativa da tv, como o símbolo máximo da banalização das imagens. O mesmo pode ser aplicado à fotografia, já que Phil há todo momento fotografa tudo com uma câmera polaroid, e acaba por afirmar que as coisas fotografadas são bastante distintas da imagem que ele presencia. Resta ao próprio cinema, portanto, essa capacidade de visualizar de modo “correto” a realidade.  Seus constantes travellings, expressão de um desejo ainda mais intenso de se apoderar da realidade filmada e de seu momento que os dos Irmãos Lumière, nos idos do cinema, são uma demonstração de que o enredo em si mesmo se torna secundário diante de um personagem principal que acaba se tornando a própria Alemanha. Como em seu filme seguinte, igualmente, há uma menção de uma visita a casa paterna que aqui não chega a se concretizar. O resultado final, repleto de achados visuais, como o sopro que “apaga” o Empire State e o entediado garoto ao lado de uma juke-box escutando Canned Heat, ainda que não tão radical e intenso quanto o de No Decorer do Tempo, já aponta certamente nessa direção. Filmverlag der Autoren/WDR para Filmverlag der Autoren. 110 minutos.


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