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segunda-feira, 14 de abril de 2014

Filme do Dia: Crônica de um Verão (1960), Jean Rouch & Edgar Morin

Crônica de um Verão (Chronnique d´un Été, França, 1960). Direção: Jean Rouch e Edgar Morin. Fotografia: Michel Brault, Raoul Coutard, Roger Morillière & Jean-Jacques Tarbès. Montagem: Néna Baratier.

Nesse belo documentário, Rouch e Morin buscam entrevistar pessoas, partindo da pergunta: “Você é feliz?”. A partir desta singela interrogação, vários indivíduos se vêem confrontados em refletir sobre questões diversas de suas próprias existências como o trabalho explorador em uma fábrica, o peso de carregar um passado nos campos de concentração no qual seus pais foram eliminados, a solidão e a falta de sentido da vida ou o choque com uma nova realidade por parte de um africano emigrado. Mais que permanecer nos depoimentos isolados (como foi o caso de Coutinho em seu Edifício Master), Rouch partiu, em certos momentos, para a apresentação de uns indivíduos aos outros, resultando em momentos nos as quais diferentes subjetividades se viram confrontadas em suas próprias construções de si com visões de mundo bastante diferenciadas. Nesse sentido, são particularmente interessantes o depoimento repleto de queixas do operário da Renault que discursa sobre a sua opressão para um africano ainda surpreso com o fato da maioria dos operários franceses possuírem automóveis ou o desconhecimento dos dois africanos sobre qual seria o motivo de Marceline possuir seu braço tatuado, considerando as hipóteses mais estapafúrdias para tentar compreender as marcas de seu passado como prisioneira em um campo de concentração. Também busca ir além da problemática pessoal quando, por exemplo, lança a polêmica da Guerra da Argélia para todos. Rouch, nesse filme, rompe com alguns dos propósitos temáticos de seus filmes anteriores, utilizando como universo de compreensão não os países africanos, mas a sua própria cidade e fazendo uso quase integralmente de som direto. Também surge diante das câmeras em diversos momentos. O resultado final, profundamente moderno, ainda possui um momento final de auto-reflexividade, quando o que é filmado é exibido para todos os que foram filmados, provocando as reações mais diversas, que foram desde o que achou excessivamente monótono até o que achou a seqüência de Marceline caminhando pelas ruas de Paris e refletindo sobre seu passado e seu pai como excessivamente empostada. Da mesma maneira, Rouch indaga de Morin sobre o que achara do filme, e esse tece comentários sobre a recepção dos envolvidos e sua própria apreciação do resultado. Afastando-se da ilusória pretensão de obejtividade buscada pelo seu congênere americano, o Cinema Direto, o cinema de Rouch se encontra profundamente consciente da presença da câmera diante daquilo que filma e os seus possíveis efeitos – desde a declaração de Marceline de que provavelmente ficaria tensa em seus depoimentos já no início do filme até a queixa do operário da Renault de que seus patrões o estavam perseguindo após saberem de sua participação no filme. Sua distância do cinema documental clássico se faz presente igualmente no nível de aproximação que passa a ter com os personagens, proporcionado pela relativa leveza do equipamento de filmagem em 16 mm, dando voz aos próprios homens e mulheres nos quais se deteve, mais que apenas os utilizando como ilustrações para seus comentários preconcebidos em off. A aparente falta de critérios dos entrevistados, pode  parecer um tanto quanto dispersiva nos dias de hoje, porém ela igualmente gera os já citados momentos de surpresa entre pessoas de situações sociais bem diversas – relativizando a tendência de todos nós a absolutizarmos nossos valores. Sua influência sobre o cinema documental posterior é infinita, presente muito nitidamente, por exemplo, na semelhante estratégia auto-reflexiva utilizada por Coutinho em Cabra Marcado para Morrer. Por outro lado, investigações centradas mais em uma determinada classe social foram utilizadas por Jabor em Opinião Pública, mesmo que apenas entrevistando superficialmente as pessoas, estratégia utilizada apenas num primeiro momento aqui, já que a perceberam como plenamente insatisfatória para os propósitos desejados. Argos Films. 85 minutos.

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