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terça-feira, 26 de junho de 2018

Filme do Dia: O Demônio da Argélia (1937), Julien Duvivier




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O Demônio da Argélia (Pépé le Moko, França, 1937). Direção: Julien Duvivier. Rot. Adaptado: Henri La Barthe, Julien Duviver & Jacques Constant, a partir do romance de La Barthe. Fotografia:  Marc Fossard & Jules Kruger. Música: Vincent Scotto & Mohamed Ygerbuchen. Montagem: Marguerite Beaugé. Dir. de arte: Jacques Krauss. Com: Jean Gabin, Line Noro,  Mireille Balin, Lucas Gridoux , Gabriel Gabrio, Saturnin Fabre, Gilbert Gil, Marcel Dalio, Charles Granval.
O charmoso gangster Pépé le Moko (Gabin), conhecido por conquistar inúmeras mulheres, vive na zona mais perigosa de Algiers, Casbah, sentindo-se seguro lá. A polícia, no entanto, tendo como principal contato o Inspetor Slimane (Gridoux), amigo próximo de Pépé, pretende o quanto antes pegá-lo em flagrante. Pépé vive com Inès (Noro). Slimane, no entanto, lhe apresenta a ricaça Gaby Gould (Balin), mantida por um homem rico, e a atração entre ambos é instantânea. A polícia utiliza Pierrot (Gil), a quem Pépé tem um carinho parternal, como isca, enviando-lhe uma pretensa carta de sua mãe. O comerciante que ajudou a polícia a aplicar o golpe, Maxime (Granval) é aprisionado por Pépé e seu grupo até que Pierrot retorne. Esse retorna mortalmente ferido, e antes de se vingar de Maxime morre, porém os amigos de Pépé fazem com que a arma que o cadáver segura dispare contra Maxime. Deprimido com a morte de Pierrot, assim como o desaparecimento de Gaby, que somente depois fica sabendo que se encontra vigiada pela polícia, Pépé tem um momento de destempero e corre rumo ao centro da cidade para encontrar sua amada, sendo detido por Inès. Após a morte de mais um dos membros da sua gangue, o seu braço direito, Carlos (Gabrio). Pépé consegue entrar no navio que o levará para longe da Argélia, mas Inès conta tudo ao Inspetor Slimane. Pépé é finalmente preso a bordo e enquanto observa Gabi na proa do navio, mata-se.
Esse que é um dos maiores clássicos do chamado realismo poético francês, apresenta uma atmosfera tensa e exótica a qual, tipicamente colonialista, não faz uso da ambientação na Argélia senão como passaporte para uma série de observações etnocêntricas, condensadas sobretudo no “pequeno documentário” que acompanha a explicação sobre Casbah para os agentes da polícia, um local “piolhento” e com mulheres “que ninguém desejaria se aproximar”, assim como repleta de labirintos, local ideal para um homem como Pépé. Ninguém espera que Gabin, o protagonista mais recorrente do cinema francês da época, termine a ação vivo. A dimensão fatalista aqui é menos prenunciada pelo naturalismo de matizes hereditários tal como em A Besta Humana, que pela ambiguidade do personagem talvez mais intrigante de toda a trama, o de Slimane, que articula boa parte da ação, e com sua perversidade de contornos sutilmente homossexuais, torna-se o protótipo de muitas relações semelhantes entre o investigador e seu investigado no cinema francês posterior. E é com o personagem vivido por Gabin, esse contraventor de “bom coração”, paternal com Pierrot, incapaz de bater na amante e brincalhão com a atração que parece exercer sobre o investigador que o filme pretende criar uma identificação por parte do espectador. Pode-se ainda destacar uma trama demasiado repleta de personagens secundários e os primeiros planos da atração entre Pépé e Gaby como demarcadores de um cinema que seria potencialmente aniquilado, enquanto potência expressiva, justamente por uma corrente que seria parcialmente influenciada por ele próprio, o neorrealista – e um dos primeiros experimentos do gênero realista no cinema italiano pré-neorrealista Alcazar, contaria justamente com Mireille Balin. Porém, longe de serem impedimentos para que o filme seja apreciado, tornam-se, em grande parte, mesmo atrativos e até rendem um de seus momentos mais interessantes, que é o que a companheira de Carlos canta nostálgica uma das canções dos tempos longínquos na qual fora sucesso dos palcos. Menos pudico que os seus congêneres norte-americanos de então, não deixa de ser influenciado por esses (que o digam os planos que seguem apenas as pernas do protagonista), o filme antecipa a figura de mulher que trai o amante que se encontrará no filme que jogará de vez a pá de cal sobre tal tipo de cinema, Acossado. John Cromwell (O Libertador), o refaria como Argélia, no ano seguinte, com Charles Boyer e Hedy Lammar e uma comparação sobre a atitude em relação ao sexo nos dois filmes pode ser bem didática, e dez anos após uma outra versão norte-americana, Casbah, o Reduto da Perdição demonstraria o poder de atração senão do próprio filme, ao menos de sua trama,  de seu apelo erótico-exótico e de seu protagonista. A popularidade do filme não passaria despercebida sequer da animação, com o personagem de Pepe, o gambá sedutor da série Looney Tunes, surgido em 1944, sido evidentemente inspirado no seu homônimo. Paris Film para DisCina. 94 minutos.