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terça-feira, 19 de junho de 2018

Filme do Dia: Copacabana Mon Amour (1970), Rogério Sganzerla


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Copacabana Mon Amour (Brasil, 1970). Direção e Rot. Original: Rogério Sganzerla. Fotografia: Renato Laclette. Música: Gilberto Gil. Montagem: Mair Tavares. Com: Helena Ignez, Othoniel Serra, Paulo Villaça, Guará Rodrigues, Laura Galano, Joãozinho da Goméia.
Sonia Silk (Ignez), prostituta na praia de Copacabana, sonha ser uma grande cantora da Rádio Nacional, enquanto seu irmão Vidimar (Serra), é apaixonado por seu patrão, o Dr. Grillo (Villaça). Visitando o pai-de-santo Joãzinho da Goméia, Silk toma a decisão de assassinar o Dr. Grillo para libertar o irmão da situação de transe em que se encontra.
Embora provavelmente seja uma experiência enervante para quem busque uma narração mais delineada, o filme de Sganzerla consegue, de certa maneira, traduzir em sua forma, e não apenas nas atuações do elenco, a atmosfera de transe hipnótico dos cultos afro-americanos, dois quais Vidimar e Silk são  praticantes. Para tanto auxilia a inesquecível fotografia de cores quentes – efetivada com uma lente Totalscope de segunda mão - que consegue traduzir como ninguém o calor paradoxalmente opressivo e liberador das ruas de Rio de Janeiro, que leva seus protagonistas ao completo delírio e obsessão sexual, numa representação dos trópicos que parece ser, sob certos aspectos, uma retradução do discurso de Paulo Prado em seu célebre livro da década de 1920, Retrato do Brasil. O transe místico, a homossexualidade masculina e feminina (inclusive quanto à primeira nas cenas provavelmente mais ousadas realizadas pelo cinema brasileiro até então), a miséria e o sol compõem um retrato que procura ser uma evocação limítrofe da desmesura. Fortemente influenciado pelo tom anarco-tropicalista de Terra em Transe (1967), de Gláuber, e repetindo vários dos motivos presentes em sua obra-prima, O Bandido da Luz Vermelha (1968), inclusive no mesmo tema musical de ritmos africanos e no se jogar ao mar como fuga desesperada para uma situação de vida que não aponta saídas, o filme antecipa algumas incursões ainda mais obscuras realizadas posteriormente, afastando-se por bem ou por mal do modelo de cinema popular sofisticado que marcara seus dois primeiros filmes. Nesse sentido, as interpretações se tornam cada vez mais anti-naturalistas e ocorre cada vez menos preocupação em sintonizar os diálogos com os movimentos labiais dos atores. Ao final do filme, existe um certo clamor de revolta contra a paralisia da sociedade brasileira como um todo diante de sua própria miséria econômica e social.  Silk é mais uma das personagens iconoclastas e debochadas criadas pelo cineasta para Helena Ignez, na trilha da Janet Jane de O Bandido e da Ângela Carne-e-Osso de A Mulher de Todos (1969). Rogério Sganzerla Produções Cinematográficas/Belair. 85 minutos.