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domingo, 25 de fevereiro de 2018

The Film Handbook#158: Nicolas Roeg

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Nicolas Roeg
Nascimento: 15/08/1928, Londres, Inglaterra, Reino Unido
Carreira (como diretor): 1970-2014

Um dos mais ambiciosos e idiossincráticos realizadores a emergirem na Inglaterra nos anos 70, Nicolas Jack Roeg é mais notável por sua rejeição completa da tradição realista e por seu interesse semelhante ao de Resnais na narrativa fragmentada. Sua obra recente, no entanto, apresenta sinais de banal repetição; o que a determinado momento parecia uma significante estratégia artística pode parecer hoje mais próximo de uma afetação maneirista.

Antes de dirigir, Roeg lentamente trilhou seu caminho de claquetista à câmera em filmes que incluem A Orgia da Morte/The Masque of the Red Death, de Corman, Fahrenheit 451 de Truffaut, Longe Deste Insensato Mundo/Far from the Madding Crowd de Schelsinger e Petulia de Lester. Por fim, juntamente com Donald Cammell, co-dirigiu Performance>1, no qual um criminoso foragido londrino se refugia na casa repleta de drogas de um astro de rock, onde é forçado a participar de um bizarro jogo pelo poder que culmina na aniquilação de sua personalidade. Violento e repleto de charadas visuais e verbais, o filme, mesmo com toda a sua originalidade, foi marcado pela natureza indisciplina e imatura de suas pretensões. De longe mais coerente foi sua estreia solo, A Longa Caminhada/Walkabout>2 (no qual duas crianças abandonadas por seu pai suicida no deserto australiano encontram um rapaz aborígene que posteriormente será aniquilado pelo encontro) e Inverno de Sangue em Veneza/Don't Look Now>3, um thriller sobrenatural ambientado em Veneza, no qual um homem, assombrado pelo espírito de sua filha morta, involuntariamente antevê sua própria morte. Ambos foram beneficiados pelo trabalho de câmera; de forma mais crucial, a complexa interrelação de Roeg entre passado, presente e futuro a evocar uma realidade psicológica foi apropriada como poucas para filmes que tematizam choques culturais e psiquismo antecipatório.

Ideias similares se encontram no eixo de O Homem Que Caiu na Terra/The Man Who Fell to Earth (uma ficção-científica épica sobre um benigno visitante alienígena  à Terra, planeta destruído pelos padrões de comportamento que ele adota) e Bad Timing>4, história de amor que termina tormentosamente em uma tentativa de suicídio e um estupro quase necrófilo. Ambos os filmes foram surpreendentemente não convencionais, embora o primeiro tenha sofrido com um roteiro crescentemente incoerente e o segundo com uma narrativa inapropriadamente fragmentária que amortizou o efeito emocional subversivo de sua análise do amour fou. Eureka, um denso e frequentemente extravagante retrato de um garimpeiro do Klondike cuja descoberta de ouro o leva não somente à riqueza mas igualmente a problemas com a família e seus rivais, foi prejudicado pelas interpretações pobres e por um simbolismo demasiado ostensivo, ganhando lançamento somente limitado. Posteriormente, Roeg se restringiu a obras em menor escala, frequentemente ambientadas em uma ou duas locações, mas ainda descompromissadas ao misturar as linhas entre realidade psíquica e objetiva, e suas narrativas não lineares. Mesmo assim, Malícia Atômica/Insignificance (sobre um encontro entre Einstein, Marilyn Monroe, Joe DiMaggio and Joe McCarthy em um hotel de Nova York), Castaway/Inferno ou Paraíso (um casal desajustado sozinho em uma ilha deserta percorre a gama da corte à hostilidade heterossexual), e Track 29 (a chegada misteriosa de um forasteiro clamando ser o filho há muito tempo desaparecido de uma mulher leva-a a loucura e, talvez, assassinato) parecem fracos em comparação com as façanhas anteriores de Roeg, suas interpretações desiguais e trucagens visuais acrescentando pouco mais que um redundante embelezamento modernista de temas banais.

Enquanto a obra recente de Roeg se tornou crescentemente teatral, deve-se ressaltar sua necessidade de maior disciplina: seu único filme de gênero, Inverno de Sangue em Veneza, também parece o mais adequadamente realizado. Ao mesmo tempo, no entanto, acentuando a busca por um modo de narrar mais visual que literário, Roeg permanece um dos mais idiossincráticos, provocativos e promissores realizadores britânicos.

Cronologia
O estilo fragmentado de Roeg inevitavelmente evoca o de Resnais e Petulia de Lester. É também interessante comparar sua obra com a de antigos colaboradores como Donald Cammell e Paul Mayersberg.

Destaques
1. Performance, Reino Unido, 1970 c/Mick Jagger, James Fox, Anita Pallenberg

2. A Longa Caminhada, Australia,1971 c/Jenny Agutter, Lucien John, David Gumpill

3. Inverno de Sangue em Veneza, Reino Unido, 1973 c/Donald Suterhland, Julie Christie, Hilary Mason

4. Bad Timing, Reino Unido, 1980 c/Art Garfunkel, Theresa Russell, Harvey Keitel

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 242-3.