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domingo, 18 de fevereiro de 2018

The Film Handbook#157: Derek Jarman

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Derek Jarman
Nascimento: 31/01/1942, Northwood, Middlesex, Inglaterra, Reino Unido
Morte: 19/02/1994, Londres, Inglaterra, Reino Unido
Carreira (como diretor): 1971-1993

Às turras com o cinema comercial britânico (não apenas por conta de sua permanente aversão ao realismo mas também por sua visão profundamente pessoal fincada em sua aberta e inconsciente homossexualidade) Derek Jarman, paradoxalmente permanece um Romântico Inglês. Vanguardista no método mas grandemente nostálgico no temperamento, seus filmes de reduzido orçamento entrelaçam política, sexo e arte de forma altamente poética.

Com uma formação em artes plásticas, Jarman iniciou realizando curtas em Super-8 enquanto trabalhava como diretor de arte em Os Demônios/The Devils e O Messias Selvagem/Savage Messiah de Russell: não narrativos, foram evocações misteriosas de rituais ancestrais, tão apaixonados e privados quanto um diário. Seu longa de estreia, Sebastiane>1, foi igualmente pessoal, o martírio do santo provocado pelos ciúmes sexuais dos soldados romanos vivendo em uma remota guarnição siciliana. Com diálogos em latim frequentemente traduzidos em irreverentes legendas em inglês (Édipo = Fode a mãe) e  planos líricos repletos de sensibilidade homo-erótica, o filme foi uma provocativa combinação de sagacidade camp, bravura visual e variações originais sobre os temas da sexualidade e do poder. Também imaginativo, mas de longe menos disciplinado, foi Magnícidio/Jubilee no qual Elizabeth I é guiada por um vidente da corte através da desolação anárquica, violenta e sombria de uma Inglaterra vagamente futurista; infelizmente, seu impressionante universo visual foi prejudicado pela postura vulgar de um atraente mas nada talentoso elenco e por um roteiro determinado em atingir satiricamente alvos óbvios. A Tempestade/The Tempest, uma tipicamente lúdica condensação do texto clássico, transformando a ilha de Shakespeare numa mansão gótica, repleta de decoração camp e fantástica, contava com atuações novamente amadoras. The Angelic Conversation, no entanto, no qual leituras de 14 sonetos do Bardo eram acompanhados (mas não ilustrados) por tableaux de jovens homens a se banhar, lavar e fazer amor em românticas locações naturais, foi tanto um retorno aos experimentos formais destituídos de enredo de sua obra inicial quanto uma meditação estilizada sobre o desejo. (Ele nunca abandonaria sua obra em super-8, 16 mm e vídeo, frequentemente realizando iconoclastas vídeos pop de divulgação). Porém foi  o filmado em estúdio e longamente planejado Caravaggio>2 que revelava um Jarman mais maduro. Uma elegante biografia do pintor renascentista, recordando em seu leito de morte sua relações voláteis com dois modelos que levaram o artista ao triunfo mas igualmente a ser preso por assassinato, o filme é simultaneamente acessível e altamente pessoal. Mais uma vez, o engajamento aproximado com as personagens provoca uma forte atração emocional, enquanto o estilo brando e artístico, reminiscente do próprio chiaroescuro de Caravaggio, apresenta vários deliberados anacronismos (máquina de escrever, motos), estranhamente plausíveis.

Crepúsculo do Caos/The Last of England>3 foi, no entando, mais controvertido. Um fragmentário ensaio sobre o passado, presente e futuro da Inglaterra, combina velhos filmes domésticos com cenas do próprio Jarman e referências fáceis às Falklands, à bandeira e à realeza. Transcorrendo em um ambiente urbano e decadente, o filme foi demasiado empático, indulgentemente amargo e coalhado de pesado simbolismo. Foi seguido por War Requiem, no qual o oratório de Benjamin Britten, inspirado pelos poemas de Wilfred Owen, foi acompanhado frequentemente por poderosas imagens - ficcionais e documentais - ilustrando a devastação da guerra. Novamente, um tom descompromissado confirmava Jarman enquanto dissidente cuja auto-confiança pode se aproximar da arrogância, mas cujo compromisso com o cinema enquanto forma artística, por mais modesto e privado que seja, é inabalável.

Cronologia
O uso do cinema enquanto expressão homo-erótica de Jarman, influenciado por Warhol, Cocteau, Pasolini e Kenneth Anger, tornam-no comparável com Terence Davies; seu romantismo ecoa o de Powell e Russell, enquanto seu experimentalismo pode ser contrastado com a obra mais cerebral de Greenaway, assim como a de Peter Wollen e Laura Mulvey.

Leituras Futuras
Dancing Ledge (Londres, 1984) é a autobiografia de Jarman.

Detaques
1. Sebastiane, Reino Unido, 1976 c/Leonardo Treviglio, Barney James, Richard Warwick

2. Caravaggio, Reino Unido, 1986 c/Nigel Terry, Sean Bean, Tilda Swinton

3. Crepúsculo do Caos, Reino Unido, 1988 c/Spring, Gerrard McArthur, Tilda Swinton

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 139-41.


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