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domingo, 19 de novembro de 2017

Filme do Dia: Koyaanisqatsi - Uma Vida Fora de Equilíbrio (1982), Godffrey Reggio


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koyaanisqatsi – Uma Vida fora de Equilíbrio (EUA, 1983). Direção: Godffrey Reggio. Rot. Original: Godffrey Reggio, Michael Hoenig, Ron Fricke & Alton Walpole. Música: Phillip Glass & Michael Hoenig. Fotografia: Ron Fricke. Montagem: Ron Fricke & Alton Walpole.
O primeiro de uma trilogia que só seria completa quase vinte anos após, apresenta como mensagem-título a modernização como principal estimuladora de uma vida louca ou sem equilíbrio no idioma hopi – de onde foi, igualmente, extraída a letra da composição, em forma de ópera minimalista, que acompanha todo o filme. Munindo-se somente de imagens, em sua maior parte filmadas pela própria equipe e ocasionalmente de imagens de arquivo, da citada trilha sonora e de efeitos de câmera lenta – e principalmente – acelerada, o filme procura “denunciar” a sordidez de um mundo moderno que se movimenta obsessivamente sem o menor sentido, seja no tráfego louco de Nova York ou nos gestos repetitivos a exaustão (e, com efeito de ampliação da aceleração da imagem) de jogadores de videogame ou de operários da indústria automobilística. Em uma das primeiras sequências em que o ser humano é divisado, Reggio aponta que há algo de errado em uma civilização em que uma mãe tranquilamente faz lazer com o filho nas areias de uma praia há poucos metros de uma usina nuclear. Segue-se, então, um turbilhão de imagens de multidões em movimento como formigas, automóveis que se transformam em imagens semelhantes a laser e, numa sequência de destaque particular, a cidade moderna por excelência se transforma em algo muito semelhante as placas de computador. Quanto aos seres humanos, as poucas vezes em que a câmera se aproxima deles, são a própria expressão da apatia, da solidão e do patético (um grupo de trabalhadoras de um cassino em Las Vegas posa para a câmera com seu ridículo uniforme e maquiagem, um velho faz propaganda com o boné de uma atração turística, outro faz a barba em plena rua, vários rostos melancólicos), possuindo como contraponto a irônica mensagem de um anúncio publicitário vista pouco antes que exorta a felicidade. Igualmente não faltam as tradicionais e diversas sequências em que se destaca o caráter serial da linha de produção (que agora fazem justamente o oposto da pretensa louvação da modernidade que filmes como Berlim, Sinfonia de uma Metrópole efetivaram, demonstrando o banal e o desumano, que aliás, inconscientemente, o próprio filme de Ruttman já apresentava). Também sobra uma rápida sequência para ironizar com o bombardeio de informações e imagens proporcionados pela televisão. O resultado, sintetizado na longa e bela sequência final, que acompanha a explosão de um foguete e, particularmente, de uns destroços aos quais acaba se sobrepondo a imagem de uma pintura do povo Hopi é mais que evidente: se continuarmos nesse ritmo perderemos qualquer possibilidade de fruição da essência humana e estaremos, ainda pior, condenados ao apocalipse. Tal sequência, aliás, é um explícito contraponto ao otimismo e fé na razão que articulavam o plano às avessas de 2001: Uma Odisséia no Espaço (1968), de Kubrick, quando o osso jogado pelo macaco se transformava em uma moderna nave singrando pelo espaço. Aqui, opera-se em sentido inverso, da alta tecnologia para uma pintura ancestral. Porém, em última medida, a crítica efetivada por Reggio soa grandemente retórica, senão mesmo conservadora, tão presa se encontra de uma idealização de culturas do passado e igualmente sem apontar qualquer saída no presente que não seja a mera abstração. Seu último filme da trilogia apenas confirma, senão de modo ainda mais acentuado, um humanismo vago e irritante que é o mesmo motor para documentários igualmente supervalorizados como o brasileiro Nós que Aqui Estamos Por Vós Esperamos. Utilizando-se igualmente somente da música e imagens, em sua maior parte de arquivo, e provavelmente com preocupações bastantes semelhantes as de Reggio, o cineasta armeno Pelechian consegue resultados bem mais notáveis e intrigantes. Prêmio do Público na Mostra Internacional de São Paulo. Institute for Regional Education. 87 minutos.