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quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Filme do Dia: Uma Abelha na Chuva (1972), Fernando Lopes

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Uma Abelha na Chuva (Portugal, 1972). Direção: Fernando Lopes. Rot. Adaptado: Fernando Lopes, baseado no romance de Carlos D´Oliveira. Fotografia: Manuel Costa e Silva. Música: Manuel Jorge Veloso. Montagem: Teresa Olga. Com: Laura Soveral, João Guedes, Zita Duarte, Ruy Furtado, Carlos Ferreiro, Fernando de Oliveira, Adriano Reys.
Álvaro Silvestre (Guedes) é um rude camponês que se casou com uma aristocrata decadente, Maria dos Prazeres (Soveral), que sente desprezo por ele, refugiando-se no teatro e nos romances que reconta para as amigas.  Certo dia, Álvaro escuta na cozinha comentários maliciosos sobre o olhar que sua esposa lança a Jacinto (Reys) pelo próprio cocheiro a sua amada, Clara (Duarte), empregada filha do Mestre Antônio (Furtado), com quem pretende se unir. Mestre Antônio, no entanto, tem outros planos para a filha, pretendendo um casamento que o possibilitará salvar da ruína econômica, com um agricultor de posses. Sua decisão toma prumo quando Álvaro, enciumado e impotente diante da esposa, a quem só consegue enfrentar enquanto alcoolizado, vinga-se contando que flagrara sua filha com Jacinto. Mestre Antônio induz o também empregado Marcelo (Ferreiro), que já notara possuir interesses na filha, em matar Jacinto. Depois de se desfazerem do cadáver, Marcelo é morto quando buscava fugir.

Admirável filme, cuja descrição da relação de opressão doméstica e de posse nunca concretizada de fato (já que em ambos os casos, inclusive por ser menos instruído, o homem jamais será capaz de domesticar a subjetividade de sua esposa) da mulher é passível de várias relações com o seu contemporâneo brasileiro São Bernardo, também inspirado, como o nacional,  em um clássico literário do movimento conhecido como Neorrealismo, publicado em 1953. Seus belos enquadramentos através da montagem de planos em câmera fixa mesclados a uma câmera que por vezes vasculha o espaço, como que o tateando com luvas de pelica – tal é a sensação de planos como, por exemplo, o das águas uma lagoa – podem render imagens de mais de dois minutos, sendo que um desses se repete parcialmente logo após seu fim. Dada essa sua  montagem não linear e certos cacoetes de estilo evidentemente influenciados pela Nouvelle Vaguee seus reflexos modernistas ao redor do mundo, como a utilização da foto fixa em diversos momentos, a narrativa pode não se encontrar delineada de modo tão claro quanto no filme de Leon Hirzsman. Porém certamente é uma adaptação que consegue construir de modo mais efetivo uma atmosfera, sobretudo dos elementos mais essenciais do romance, como a decadência, culpa e a imobilidade de seus personagens, do que adaptações literárias efetivadas pelo cinema brasileiro da década anterior tais como Capitu ou Menino de Engenho. Mais do que os próprios diálogos ou ações, é a paisagem taciturna e enevoada, belamente fotografada em preto&branco, assim como o casarão aonde transcorre a maior parte da história, visto de relance em um plano recorrente, que constroem uma tradução visual para as questões postas pelo romance. O mais curioso é que aqui, ao contrário da obra de Graciliano Ramos, os infortúnios do par central não terão conseqüência direta sobre eles próprios, mas antes sobre um casal de empregados que representava justamente um aceno de esperança e verdadeira paixão. Devido a problemas de produção, o filme levou quatro anos para ser finalizado. Existe uma outra versão, dez minutos mais longa, onde talvez se encontre descrito o suicídio de Clara, presente no romance. Media Filmes. 65 minutos.