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sábado, 28 de fevereiro de 2015

Filme do Dia: Monika e o Desejo (1953), Ingmar Bergman

Monika e o Desejo (Sommaren med Monika, Suécia, 1952) Direção:  Ingmar Bergman. Rot. Adaptado: Ingmar Bergman&Per Anders Fogelstron, baseado no romance do último. Fotografia: Gunnar Fischer. Música: Erik Nordgren. Montagem: Tage Holmberg e Gosta Lewin. Com: Harriet Andersson, Lars Ekborg, John Herryson, George Skarstedt, Daggmar Ebbesen, Ake Fridell, Naeme Briesse, Gosta Eriksson.
        Monika (Andersson) encontra casualmente Henrik (Ekborg), e induz para que ele a chame para o cinema. Passam a se relacionar. Extremamente carente e inseguro, Henrik trabalha no almoxarifado de uma loja de porcelanas. Monika tem fama em seu bairro de ser uma mulher leviana. Sua família é mais pobre que a de Henrik, vivendo em um cortiço e tendo um pai alcoolátra que vez por outra a espanca. Um dia, Henrik a chama para sua casa e, quando Monika começa a acariciá-lo o pai de Henrik chega. O ambiente de trabalho para Henrik torna-se cada vez mais difícil, porque além de chegar várias vezes atrasado, muitas vezes se atrapalha com as entregas, perdido em devaneios. Um dia Monika não aguenta as humilhações do pai e resolve sair de casa. Quando Henrik chega do trabalho é surpreendido por Monika, que lhe conta tudo. Ela pede para subir, mas Henrik afirma que uma tia (Ebbesen) sua lá se encontra. Lembra-se então do pequeno iate que pertence a seu pai e leva-o até ele. Na primeira noite em que dormem juntos no iate, Henrik acorda tarde demais para o trabalho, e após chegar mais uma vez atrasado, ouve mais reclamações. Não mais aguentando, pede suas contas. Juntos, decidem passar um verão  sem compromisso em praias próximas da cidade, com o dinheiro que Henrik recebeu ao sair do emprego. Vivendo dias de idílio completo, a situação começa a se deteriorar, quando a comida começa a escassear, um veranista chamado René  resolve invadir o iate e vasculhar seus pertences, além de tentar pôr fogo no mesmo e Monika resolve invadir a adega de uma família, sendo flagrada enquanto roubava um cozido. O pai da família a leva para casa e avisa que irá chamar a polícia. Uma mulher oferece um lugar para Monika à mesa. Esta senta mais não toca na comida, revidando as tentativas de conversa por parte da mulher. Enquanto o pai sai do aposento, Monika rapidamente abandona a casa, levando consigo o cozido. Após uma longa procura por Henrik, encontra-o e começam a discutir. Chegam a conclusão que devem retornar à cidade, após Monika afirmar que se encontra grávida. Após o casamento civil consumado, ele com dezenove anos, ela com dezoito, passam a morar em um pequeno apartamento. Henrik começa a trabalhar como caixeiro-viajante, porém a vida conjugal demonstra ser menos fácil do que imaginavam. Após o nascimento da menina, que acaba levando o nome da mãe, Henrik sente-se sobrecarregado, trabalhando fora, estudando à noite para melhorar de vida e, ao mesmo tempo, eventualmente tendo que tomar conta da menina para que Monika consiga dormir. Monika por sua vez reclama da situação de penúria em que vive, que não lhe possibilita comprar um casaco novo ou ir ao cinema e da ausência de Henrik. Após chamar sua tia, para que tome conta da criança, enquanto se encontra fora trabalhando, Henrik parte mais uma vez em viagem. Enquanto se encontra fora, Monika sai e se encontra com René, o veranista. Quando Henrik retorna surpreende-os juntos. Afirma para Monika que a situação não pode continuar como está e que talvez seja melhor que se separem. Monika reitera suas críticas habituais à ausência de Henrik e a falta de dinheiro. Após uma discussão, iniciam um contato amoroso, quando Henrik interrompe e afirma que não acredita que Monika tenha levado René para o apartamento deles. Ela afirma que não pode fazer nada pois o ama. Henrik a agride fisicamente, e ela parte. Apesar de sua tia ter se oferecido para ficar com a criança, Henrik afirma que pretende cuidar dela ele próprio. Diante de uma vitrine, com a criança no braço, Henrik relembra nostálgico os melhores momentos que viveu com Monika.
          Um dos maiores filmes de Bergman, em  que a maturidade tanto de tema quanto de estilo se aliam numa demonstração de modernidade que deixa a anos-luz de distância as produções de Hollywood da época. Destituído de sentimentalismo, Bergman apresenta um retrato cruel e agridoce do ciclo que compreende: a fuga da vida cotidiana (representada pela violência do pai e a sordidez do ambiente em que vive e trabalha para Monika e do trabalho insuportável para Henrik); a situação idílica nas praias em que Henrik descobre todos os prazeres do amor e do carinho que lhe foram negados desde cedo (sua mãe morreu quando ele ainda era criança, seu pai e ele mal se comunicam); o casamento, que acaba por solapar qualquer ilusão de estender os sonhos que viveram no verão para o dia-a-dia. Com rara acuidade psicológica, são construídos personagens extremamente ricos, como é o caso de Henrik, que só consegue vivenciar a felicidade afastado do mundo real (seja na sala escura do cinema ou nas praias afastadas do convívio social) e, em igual grau, de Monika (que, em plena situação de dificuldades econômicas em que vivem, reclama de não ter dinheiro para o cinema). A sensibilidade de Henrik e dificuldade para lidar com situações que vão além de seus sonhos, construídos sobre bases nada sólidas, se contrapõe a maior pragmaticidade de Monika, que apenas impulsivamente reagiu a toda uma história amorosa já que o afeto, a sensibilidade e a atenção não foram as maiores virtudes de seus parceiros anteriores. Também curiosa e moderna é a criticidade com que Bergman vê o próprio ilusionismo do cinema, um dos elementos que alimentou a relação imatura do casal, afastando-se da habitual valorização do mesmo em filmes tão diversos quanto Noite Americana, Cinema Paradiso  e Splendor. Utilização frequente de fades. Bela fotografia de Fischer. Entre os melhores momentos se encontram o que Monika se despe e vai tomar banho de mar observada por Henrik, a recordação nostálgica de Henrik do mesmo momento no final e a cena em que Andersson encara a câmera por um longo tempo, recurso que habitualmente só fora utilizado anteriormente no cinema para efeito cômico ou narrativo. Um dos mais cruéis retratos do amadurecimento forçado (Henrik) e de como é efemêro o sentimento de felicidade e de amor na vida. As cenas idilícas do verão evocam uma singeleza semelhante a de  L’Atalante (1933) de Vigo, além de apresentar  a natureza como refúgio do insuportável cotidiano da cidade e em perfeita harmonia, pelo menos no início, com o elemento humano. Svenskfilmindustri. 90 minutos.


2 comentários:

  1. Uma obra destruidora de ilusões juvenis idílicas sobre o amor, em outras palavras, uma obra realista.

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  2. acho que poucos filmes merecem tanto o epíteto de "agridoce" como esse, Gustavo.

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