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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Filme do Dia: Boneca de Carne (1956), Elia Kazan

Boneca de Carne (Baby Doll, EUA, 1956)  Direção: Elia Kazan. Rot.Original: Tenessee Williams. Fotografia: Boris Kaufman. Música: Kenyon Hopkins. Montagem: Gene Milford. Com: Karl Malden, Carroll Baker, Eli Wallach,  Mildred Dunnock,  Lonny Chapman,  Eades Hogue ,  Noah Williamson.
             No Sul dos EUA, Baby Doll (Baker), jovem de 19 anos, vive precariamente com o marido Archie Lee (Malden) e sua tia Rose Comfort (Dunnock) em um antigo casarão em ruínas. A relação entre ambos é a pior possível já que, por um lado Archie prometera sustentá-la convenientemente após a morte de seu pai, o que não consegue, devido aos problemas finançeiros, a falta de ação e problemas com a bebida e, por outro, Baby Doll não abre mão do pacto pré-nupcial, pelo o qual o casamento só seria consumado após completar 20 anos, interessando-se por todos os homens que se aproximam. Cada vez mais ridicularizado na cidade, Archie vinga-se tocando fogo na máquina de descaroçar algodão de um dos empreendores emergentes na cidade, o italiano Silva Vacarro (Wallach). Enquanto Vacarro se desespera, a reação da população é de indiferença, já que muitos também foram prejudicados após a chegada de Vacarro. Como Archie Lee era o único que não se encontrava presente na reunião que Vacarro fazia com outros algodoeiros no momento do incêndio, ele logo passa a ser suspeito. Vacarro se aproxima da casa de Archie Lee, que eufórico o recebe de braços abertos, partindo depois para procurar uma nova descaroçadeira de algodão, já que a sua se encontra com defeito. Vacarro, no entanto, logo torna-se o senhor da situação, substituindo a peça quebrada na máquina de Archie Lee e continuando a produção. Ao mesmo tempo se aproxima de Baby Doll, e procura seduzi-la, conseguindo com que assine um documento comprovando que Archie Lee foi o culpado pelo incêndio - logo no início da conversa com Vacarro, ela afirma que Archie Lee saíra na noite anterior e voltara tarde, desmentindo o que o próprio dissera. Porém, quando vai se retirar da casa, após ter conseguido o documento, recebe o convite de Baby Doll para dormir no berço em que ela dorme, um dos poucos móveis que restou na casa. Archie Lee retorna para casa desanimado ao saber que fora traído por Vacarro, que conseguira a peça que faltava para a máquina. Quando chega em casa, encontra Baby Doll de camisola e Vacarro, descontando sua fúria em Tia Rose, afirmando que já faz muito tempo que ela se encontra na casa dele. Vacarro convida tia Rose para morar com ele. Completamente fora de controle, Archie Lee pega a espingarda e procura matar Vacarro, que se esconde numa árvore com Baby Doll. Com a chegada do delegado (Hogue), Vacarro aproveita a ocasião para ir embora, frustrando tanto os planos de Baby Doll quanto de Tia Rose, enquanto Archie Lee vai passar a noite na cadeia.
          Mais um exemplar da notável ruptura do cinema americano na década de 50 com temas que apenas endossavam o american way of life, apresentando um dos retratos mais cruéis da decadência moral e econômica já vistos na tela. O roteiro, escrito por Tennessee Williams (uma das figuras de proa nessa conversão do cinema americano do final dos anos 50 e início de 60), explora com a habitual habilidade a insegurança e fraqueza de caráter de seus personagens masculinos contrapostas a mulheres de personalidade forte e grande energia sexual. A cena em que Doll e Vacarro se encontram no balanço, o apelido de “Big Shot” com que Doll chama Archie Lee e a satisfação com que Doll e Vacarro se deliciam com o pão molhado na sopa, demonstram a perversa e pseudo-subterrânea aproximação de alguns filmes da época com relação ao sexo, talvez mais impactante que a dos filmes atuais. O conflito final em que os quatro personagens principais se encontram na sala de jantar possui uma carga de tensão dramática hipnótica que lembra o ainda mais teatral Quem Tem Medo de Virginia Woolf?(1966), de Mike Nichols. Aqui a teatralidade surge tanto na valorização dos diálogos sobre o tratamento visual (mesmo com a bela e ensolarada fotografia de Kaufman) como na interpretação destes, com o pretenso naturalismo de então soando hoje como mais um desenvolvimento dramatúrgico proveniente do teatro, assim como no centramento espacial - a maior parte da ação transcorre na casa de Archie Lee- e temporal - em não mais que dois dias e duas noites. Os personagens, no entanto, não possuem um maior aprofundamento psicológico e ao acentuar apenas o lado grotesco deles, Williams parece se aproximar, em certos ângulos, da atmosfera dos romances naturalistas brasileiros do final do século XIX, com o autor descrevendo a partir de um patamar moral mais elevado todas as taras e fraquezas dos mesmos. O final, parece um tanto quanto truncado, com o desaparecimento inexplicável de Vacarro. Curiosamente, ao contrário da maior parte dos filmes de então - inclusive das adaptações de Williams para o cinema - o filme se recusa a apontar soluções ou acenar para um happy end.  Malden e Baker estão excelentes, ele sendo o retrato da própria frustração paranóica, ela passando da ingenuidade a mais pura malícia. O mesmo não se pode dizer de Wallach, que faz um siciliano demasiado caricato. Newtown Productions. 114 minutos.


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