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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

The Film Handbook #9: Philip Kaufman

Philip Kaufman
Nascimento: 23/10/1936, Chicago, EUA
Carreira: 1963-

Embora seja difícil defender a existência de qualquer consistência estilística ou temática nos filmes de Philip Kaufman, seu grande ecletismo torna-o um dos mais intrigantes realizadores norte-americanos dos últimos anos. Sua originalidade reside na natureza peculiarmente adulta de seus projetos e sua aproximação oblíqua dos gêneros.

Após estudar direito e fonoaudiologia na Europa, Kaufman retornou a Chicago para realizar dois filmes independentes de baixo orçamento, o premiado em Cannes Goldenstein (uma parábola surreal e episódica sobre um profeta não reconhecido de Chicago) e Frank's Greatest Adventure (Fearless Frank), sátira sobre política e criminalidade urbana. Porém Hollywood acenou para ele e, em 1972, Kaufman realizou Sem Lei e Sem Esperança (The Great Northfield Minnesota Raid)>1, um engenhoso e desmistificador western, retratando o herói popular fora-da-lei Jesse James como psicopata místico levado a se tornar ainda mais criminoso pelo capitalismo; os clichês do gênero são secundarizados por uma alegria subversiva, a visão de uma América despedaçada pela exploração servindo tanto como análise sócio-política quanto trampolim para um delicioso humor negro. Igualmente excêntrico e inteligente, The White Dawn, ambientado na virada do século, utiliza-se da exploração dos esquimós por três marinheiros naufrágos como uma alegoria vibrante e persuasiva dos malefícios do imperialismo norte-americano.

Uma refilmagem de Invasores de Corpos (Invasion of the Body Snatchers), atualizando a história de seres humanos sendo substituídos por "vagens" alienígenas para a San Francisco dos anos 70, misturava, de forma engenhosa, pessoas continuamente falando baboseiras psicológicas da geração do Eu e os invasores não muito diferentes, criando uma poderosa atmosfera de paranoia. A Gangue da Pesada (The Wanderers), ambientado no Bronx em 1963 foi um filme de gangues acima da média, sobretudo por seu excelente uso do rock, quadrinhos coloridos e performances cheias de vida. Kaufman já havia estabelecido seu nome como co-roteirista de O Estranho sem Nome (The Outlaw Josey Wales), de Eastwood e Os Caçadores da Arca Perdida (Raiders of the Lost Ark) de Spielberg (o qual havia sido originalmente designado para dirigir), mas seu maior sucesso de crítica veio com a verdadeiramente épica adaptação de Tom Wolfe de Os Eleitos (The Right Stuff)>2, no qual o calmo heroísmo do piloto de testes Chuck Yeager, que quebrou a barreira do som no final dos anos 40, tanto inspira quanto ofusca as mais célebres façanhas dos sete astronautas do pioneiro programa Mercury. Um tributo à coragem, bom senso e profissionalismo, o filme é um western moderno, com cenas e imagens reminiscentes de Ford em sua mais seca poesia, expondo a máquina publicitária orquestrada por políticos e imprensa como um grotesco mecanismo provocado por interesses próprios.

O senso de aventura do diretor foi mais uma vez evidente em sua sensível e fiel versão do romance infilmável A Insustentável Leveza do Ser (The Unbereable Lightness of Being)>3, de Milan Kundera. Ele lida com a irresponsabilidade de um médico mulherengo checo, fruto da liberação da "Primavera de Praga", que é finalmente curado pelo amor por uma inocente garota do campo e pela paranoia universal e clima de denúncia que se segue à invasão soviética em 1968. Lento, elegante e belamente interpretado o filme, ainda que ocasionalmente marcado pela misoginia voyeurista do romance, foi um exemplo soberbo de adaptação cinematográfica, com suas imagens lúcidas e cuidadosamente compostas sem muito esforço acomodando e dando concretude ao frequentemente opaco filosofês do original.

Algo como um dissidente, Kaufman permanece fiel ao seu ódio ao compromisso comercial, aplicando uma distinta mescla de engenhosa ironia, visuais estilizados e autenticidade histórica a uma diversidade de temas. Ao tratar de sérios temas políticos e sociais por um meio de entretenimento popular, ele tem demonstrado ser um realizador de inteligência, integridade e imaginação.

Genealogia
Kaufman fala de sua admiração por Welles, Bergman e a Nouvelle Vague francesa; como Altman, Penn e Rafelson sua sensibilidade parece ser ao mesmo tempo americano (no estilo) e européia (em sua zombeteira atitude crítica perante às instituições americanas).

Destaques
1. Sem Lei e Sem Esperança, EUA, 1971, c/Cliff Robertson, Robert Duvall, R.G. Armstrong

2. Os Eleitos, EUA, 1982, c/Sam Sheppard, Ed Harris, Dennis Quaid, Scott Glenn

3. A Insustentável Leveza do Ser, EUA, 1987 c/Daniel Day-Lewis, Juliette Binoche, Lena Olin

Fonte: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 143-4.

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