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quarta-feira, 2 de abril de 2014

Filme do Dia: Rotaie (1929), Mario Camerini

Rotaie (Itália, 1929). Direção: Mario Camerini. Rot. Adaptado: Mario Camerini & Corrado D’Errico, baseado no conto do último. Fotografia: Ubaldo Arata. Montagem: Mario Camerini. Dir. de arte: Umberto Torri. Com: Käthe von Nagy, Maurizio D’Ancora, Daniele Crespi, Giacomo Moschini, Mario Camerini, Carola Lotti.
Giorgio (D’Ancora) e sua amada (von Nagy) se refugiam em um hotel para passar uma noite. O plano de ambos é o do suicídio duplo, mas um trem acaba passando ao lado do quarto, e sua estridência faz com que o copo com o veneno caia no chão. Giorgio parece pressentir no acaso um sinal de que devem continuar vivos. Eles saem sorrateiramente do hotel, para não terem a necessidade de pagá-lo e vão até a estação ferroviária. Lá, Giorgio recolhe a carteira que um homem deixa cair, com uma boa quantidade de dinheiro. Ele parte com sua companheira para Monte Carlo, onde ganha uma boa quantia de dinheiro com o jogo. Obsessivo com o jogo, perde tudo em pouco tempo. Decide partir com a garota, agora disposto a abraçar a vida produtiva  de operário de uma indústria.
Tido por alguns como tendo influenciado o “realismo poético” francês, por conta de seu fatalismo associado a um amor fou, em seu prólogo parece sobretudo ter sido influenciado pelo expressionismo alemão em seu uso rarefeito de cartelas, constantes movimentos de câmera e criação atmosférica de um universo sombrio a partir do contraste entre luzes e sombras. Porém essa impressão se desfaz logo, pois logo se percebe que todas as referências estrangeiras, que passam pelo cinema de vanguarda francês, pelo cinema de montagem soviética (nos planos de duração por vezes inferior a uma fração de segundo em determinadas sequências) ou mesmo de filmes  da fase norte-americana de Murnau como Aurora (1928),  não chegam a ser mais que capilares, já que tanto as ambições quanto o resultado final são bem mais modestos. Apesar de parecer bastante distinto de produções posteriores de Camerini, tais como Gli Uomini, Che Mascalzoni! (1932), sobretudo em termos formais, ao final de contas, como aquele é uma história de amor cuja aparente sofisticação e clima existencialista de sua abertura logo sucumbem a uma prédica ainda mais tendeciosamente pró-fascista. Sua relativa originalidade e sucesso em contar a história sobretudo visualmente acabam se tornando ofuscados pela clara mensagem política. A dupla principal se encontra perdida por abraçar valores liberais que amesquinham e corrompem o ser humano, representados sobretudo pelo ricaço e devasso Jacques Mercier, não por acaso um francês. A saída aparente da natureza, com o casal amanhecendo diante de um parque, que tal como o célebre filme de Murnau, parece brevemente apontar para uma rejeição da cidade e seus valores industriais acaba, na verdade, sendo francamente oposta, quando se observa que Giorgio abraçou o trabalho, algo que já o havia salvo quando olhara pela janela a ponto de se suicidar e percebera na janela diante um homem efetivando um trabalho numa prancheta de desenho.  A aura de tranqüilidade e equilíbrio do homem contrasta com a constante inquietação e vazio do jovem. Se os trilhos que faz menção o título original podem levar ao paraíso da jogatina e do vício que é Mônaco, também podem levar a uma fábrica provinciana, onde o casal poderá refazer sua vida sem os clamores dos neon sedutores, porém ilusórios, da cidade grande. Trata-se da opção de se correr por trilhos certos ou errados.  D’Errico,  aqui roteirista também iniciaria sua carreira como cineasta (dirigiria longas como Processo e Morte di Socrate, de dez anos após) no mesmo ano dessa produção, com um curta documental. Uma versão sonorizada, mas sem diálogos, foi lançada dois anos após. D’Ancora possuía surpreendentemente meros 17 anos quando da realização desse filme, mesmo aparentando bem mais. S.A.C.I. A. 74 minutos.


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