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quinta-feira, 10 de abril de 2014

Filme do Dia: Amor de Perdição (1943), António Lopes Ribeiro

Amor de Perdição (Portugal, 1943). Direção: António Lopes Ribeiro. Rot. Adaptado: António Lopes Ribeiro, baseado no romance de Camilo Castelo Branco. Fotografia: Octávio Bobone. Música: Jaime Silva Filho. Montagem: Vieira de Souza. Dir. de arte: António Lopes Ribeiro. Cenografia: Américo Leite Rosa. Figurinos: Manuel Lapa. Com: Antonio Vilar, Carmen Dolores, António Silva, Eunice Colbert, Igrejas Caeiro, Barreto Poeira, Assis Pacheco, Alfredo Ruas.
Simão Botelho (Vilar), jovem tido como arruaceiro e inconseqüente, apaixona-se perdidamente por sua vizinha, Teresa de Albuquerque (Dolores), prometida pelo pai, Tadeu (Poeira) para se casar com o primo Baltasar (Caeiro). Teresa se recusa e é enviada ao convento. Simão, por sua vez, abandona a família e vai viver na modesta casa de João da Cruz (Silva). A filha de Cruz, Mariana (Colbert), apaixona-se perdidamente pelo rapaz.  Num episódio contra os capangas de Tadeu, dois homens são mortos, mas tudo é abafado para que o nome de Tadeu também não se veja envolvido no conflito. Depois, o próprio Simão irá matar seu rival Baltasar, nas escadarias do convento e diante de Teresa e seu pai. Ele se entrega e é condenado a morte.  Mariana tem um colapso nervoso após ouvir a sentença. O pai de Simão (Pacheco), após muita pressão, decide intervir e consegue salvar o rapaz da forca.  Como vingança pelas mortes cometidas no conflito com os capangas de Tadeu, João da Cruz é morto diante de casa. Simão volta a ver mais uma vez Teresa, já agonizante da doença que a acometeu no claustro, quando parte para o exílio. Ela morre pouco depois. Simão adoece no barco em que se encontra com Mariana e a segue logo após, sendo seu corpo jogado ao mar. Mariana, desesperada, joga-se ao mar.
Lópes Ribeiro, cineasta predileto do salazarismo, transformou a tragédia romântica de Castelo Branco, escrita em meados do século XIX, num melodrama em nada grandemente destoante da produção contemporânea conterrânea. O filme tampouco deixa de explorar a verve humorística que a persona de António Silva carrega consigo, com seus habituais chistes e por um breve período sua figura acaba transformando em coadjuvantes os personagens principais. Logo, no entanto, a ordem dramática se refaz. Lopes Ribeiro talvez possua até mais domínio no emprego de técnicas clássicas - os movimentos de câmera, por exemplo, o demonstram – que seus colegas, sendo seus persoangens e toda a trama chapadamente romanescos, no pior sentido do termo. Marcado por uma morbidez e fatalismo superficiais, assim como pela onipresença dos signos religiosos em praticamente todos os momentos de maior intensidade dramática, o filme talvez se torne mais interessante através do rico material que favorece uma leitura subliminar. Seja no caso dos pais de Simão, que representam de forma antípoda uma consciência da impessoalidade pública sobre qualquer afetividade familiar na figura do pai e o extremo oposto na figura materna. Ou ainda o quanto as estratégias de censura e cerco a filha enclausurada no convento, fazem com que a figura vilanizada do pai de Teresa seja involuntariamente próxima de um regime autoritário como era o português no momento de sua produção. A forma docilizada, mesmo que em última instância opressora, que a Igreja é apresentada no filme é bem distinta da aberta antipatia de um filme italiano contemporâneo, Recordações de um Amor. Tornar-se-ia interessante a comparação com a versão provavelmetne bastante distinta efetivada por Manuel de Oliveira em 1979. Exclusivo Triunfo/SPAC. 140 minutos.


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