Filme do Dia: Vidas Passadas (2023), Celine Song

 


Vidas Passadas (Past Lives, EUA/Coréia do Sul, 2023). Direção e Rot. Original Celine Song. Fotografia Shabier Kirchner. Música Christopher Bear & Daniel Rossen. Montagem Keith Fraase. Dir. de arte Alan Lampert. Cenografia Joanne Ling. Figurinos Katina Danabassis. Maquiagem e Cabelos Sarah Graalman & Melanie Harris. Com Greta Lee, Teo Yoo, John Magaro, Moon Seung-ah, Leem Seung-min, Ji Hye Yoon, Choi Won-young, Ahn Min-young.

Nora (Lee) e Hae Sung (Yoo) tiveram uma forte amizade na infância, subitamente interrompida quando a família dela resolveu trocar a Coréia do Sul por Nova York. Vinte anos depois, a dramaturga Nora, casada com um homem que conheceu em um período de retiro no interior do estado para a escrita de projetos, Arthur (Magaro), fica sabendo da viagem de Hae para Nova York e um reencontro vinte anos depois.

As histórias  mais tocantes de amor do  cinema e da literatura foram as que não conseguiram, por algum motivo, manter-se. E o que dizer de uma que sequer chegou a ser plenamente consciente, pois vivida na infância e adolescência? É o caso trazido neste filme, nada mal para um longa de estreia, embora eivado de fragilidades. A de aspirar uma sensibilidade, que já havia afetado produções de outras épocas, em alguma medida (caso de Hiroxima, Meu Amor), quase como se pedisse para que o espectador comentasse ao final, um tanto derretido, “que filme sensível!”. E de fato se constrói uma sensibilidade, embora haja muita inocuidade e lugares-comuns no meio disso tudo. Talvez menos culpa do filme em si que de sua época e dos tipos retratados. Uma época na qual a experiência parece passar a ser substituída por uma abstração algo difusa. O universo dos sentimentos é da ordem do inexplicável. Buscar traduzir de alguma maneira isto através de personagens ficcionais é se ficar atento a outros signos para além da fala, que tanto demonstra quanto esconde ou é incapaz de encontrar uma forma expressiva apropriada. Uma das felicidades do filme é não abraçar uma postura geracional (tipo Frances Ha), com todo o cinismo oblíquo (ou não) embutido nesta empreitada. E o que resta de verdadeiramente tocante é o reconhecimento de um afeto que lhe traslada para outro período e um outro eu. E a cena mais densa de todo o filme é o momento em que os dois simplesmente se encaram um ao outro, enquanto ele espera o uber. E se indaga se a repercussão será capaz de provocar um gesto que vá além desde compósito confuso de memórias. Mas o que se indaga é se seria necessário um longa-metragem inteiro para tanto. Em um curta o páthos ficaria prejudicado pela própria dimensão temporal, é fato. Mas em um longa...Há uma referência relativamente ligeira a Nora ser dramaturga, quando ela discute uma cena e quem seria os que dela fazem parte, que depois se tornará crucial, num flashforward um pouco diferenciado. O modo como Arthur se encontra enlaçado em pose fetal sobre Nora parece reproduzir uma foto do famoso ensaio fotográfico de Annie Leibovitz com John Lennon e Yoko Ono, igualmente um homem branco e uma mulher oriental, ambos igualmente artistas. |Killer Films/2 AM para A24. 105 minutos.

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