Filme do Dia: Paralelo 49 (1941), Michael Powell
Paralelo 49 (49th Parallel, Reino Unido, 1941). Direção: Michael Powell. Rot.
Original: Rodney Ackland & Emeric Pressburger, baseado em argumento do
último. Fotografia: Freddie Young. Música: Ralph Vaughn Williams. Montagem: David Lean. Dir. de arte: David
Rawnsley. Com: Eric Portman, Niall McGinnis, Raymond Lovell, Leslie Howard,
Laurence Olivier, Raymond Massey, Anton Walbrook, Glynis Johns.
Com um submarino atacado pelas forças
aliadas na costa canadense, um pequeno grupo de soldados nazistas se vê sem
maiores perspectivas em uma terra que não conhecem. Liderados pelo rude e
fanático Tenente Hirth (Portman), eles acabam por se apossar de um posto de
troca numa região de esquimós, tornando Johnnie (Oliver) e um amigo seu reféns.
Fogem em um hidroavião, fazendo algumas vítimas entre os esquimós e com uma
baixa do grupo. Com o pouso forçado do avião, outro homem acaba morrendo.
Sobram apenas quatro homens. Eles se aproximam de uma comunidade religiosa, os
Hutterites, porém são expulsos após o fanático discurso de Hirth, que acredita
que somente por serem alemães eles irão compartilhar de seus ideais. Vogel
(McGinnis), se entusiasma com os ideais dos Hutterites e com a história sofrida
da jovem Anna (Johns), que teve seus pais mortos pelos nazistas. Hirth, antes
de abandonar o local, mata-o. Reduzidos somente a três eles atravessam boa
parte do Canadá e chegam numa reserva natural indígena. Lá são descobertos pela
Polícia e um deles é capturado. Os dois que conseguem escapara se tornam
hóspedes do antropólogo e refinado Philip Armstrong Scott (Howard). Após
assaltarem Scott fogem, sendo que o tenente Kuhneck (Lovell) vem a ser
capturado. Agora sozinho, Hirth enfrenta no trem que o leva aos Estados Unidos,
o soldado canadense Andy Brock (Massey).
Raro filme de propaganda de guerra que
consegue manter sua força narrativa e não se deixar ser levado apenas pela
evidente mensagem ideológica – presente no discurso do líder dos Hutterites, na
fala do antropólogo e no soldado canadense do final. Enfim, é quase didática a
contraposição que esses personagens representam em relação aos ideais nazistas:
liberdade de expressão (reivindicada na fala do líder religioso e do soldado),
amor às artes (presente na fala do antropólogo que faz referência a Thomas
Mann, Picasso e Matisse, todos devidamente aviltados pelos nazistas). Por outro
lado, Powell se encontra bem distante do lugar-comum presente nas peças de
propaganda de então. Seja pela virtuosidade e dinâmica com que tudo é narrado,
em boa parte deixando de lado os estúdios pelas belas locações canadenses. Além
da insólita opção de filmagem no Canadá, sendo o título uma referência ao paralelo
que separa o país dos Estados Unidos, o filme tampouco abre mão de uma série de
excentricidades com relação ao que seria uma narrativa padrão de então, fazendo
com que os nazistas se tornem os protagonistas, abandonando da narrativa o
personagem vivido por Olivier, que aparentemente seria o herói do filme – num
recurso que, de certo modo, antecipa a célebre opção de Hitchcock em Psicose. E, não menos curioso, é que
mesmo no auge da guerra e com personagens que corporificam sem muitas nuances o
que seriam os valores democráticos de um lado e os totalitários e insanos do
outro, não deixa de construir um personagem nazista humano, ainda que sua
humanidade advenha de sua disposição de abandonar os colegas e permanecer com
os Hutterites, o que gerou polêmicas à época. Sua ironia com a
contra-propaganda nazista é explícita, no momento em que um dos personagens
indaga o que estaria Goebbels afirmando a respeito do caso, e a seqüência
seguinte apresenta uma representação do próprio saudando a coragem desses
“heróis entre 11 milhões de inimigos.” Tal referência irônica ao ministro da
propaganda alemão faz parte da própria provocação lançada pelo roteirista
Pressburger, que co-dirigiu alguns dos mais relevantes filmes de Powell antes e
depois dessa produção. Ministry of Information/Ortus Films. 123 minutos.

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