Filme do Dia: O Amanhã é Eterno (1946), Irving Pichel



O Amanhã é Eterno (Tomorrow is Forever, EUA, 1946). Direção: Irving Pichel. Rot. Original: Gwen Bristol & Lenore J. Coffeee. Fotografia: Joseph A. Valentine. Música: Max Steiner. Montagem: Ernest J. Nims. Dir. de arte: Wiard Ihnen. Figurinos: Jean Louis. Com: Claudette Colbert, Orson Welles, George Brent, Lucile Watson, Richard Long, Natalie Wood, John Wengraf, Sonny Howe.

Elizabeth (Colbert) vive um continuado caso de amor com o marido John MacDonald (Welles), até o momento em que esse resolve se alistar na I Guerra Mundial. Elizabeth, então grávida de seu primeiro filho, é acolhida por Larry Hamilton (Brent), um dos donos da empresa na qual trabalha, após ficar sabendo da morte desse em combate. John, no entanto, encontra-se vivo, mas decide retornar somente vinte anos após, como o químico Kessler tornando-se assessor de Larry, conhecendo o filho, Drew (Long), que decide se alistar, contra a vontade da mãe, para combater contra as forças de Hitler. No aniversário de casamento, Elizabeth visita a casa que vivera com John e Kessler por lá surge. Eliabeth tem certeza agora que se trata de John. Esse ao saber que Drew se encontra desaparecido, lê a carta que escrevera ao pai e vai de encontro a ele no terminal ferroviário, trazendo-o de volta à casa. Após uma conversa intensa tida com Kessler (que por pouco não se assume de fato enquanto John), Elizabeth se sente livre agora de qualquer trava, entregando um objeto caro de sua lembrança de seu passado feliz com John a Tia Jessie (Watson) e apoiando a decisão do filho de partir para a guerra. John sucumbe a um ataque cardíaco. Sua filha adotiva, Margaret (Wood), será adotado pelos Hamilton.

Com uma surpreendente tenacidade, típica do cinema norte-americano do pós-guerra, tanto em termos narrativos quanto estilísticos, essa produção não arreda o pé por nenhum segundo de ser  visivelmente orientada para o grande público de sua época – e que foi, diga-se de passagem, o maior público que Hollywood jamais teve justamente nesse ano – e, nem por isso deixar de flertar com o absurdo e a incongruência da figura de um morto-vivo que vem a macular uma relação plenamente ordenada, porém destituída do elan único (e marcante) da juventude, em um formato um tanto original do velho triângulo amoroso. É Hollywood fazendo uso de elementos secundários de época (guerra, nazismo, patriotismo, democracia) apenas como uma leve pátina em uma camada muito mais substanciosa de questões imemoriais como memória, amor, juventude, paixão e responsabilidade. Tudo evidentemente salpicado das habituais redundâncias dramáticas plenamente afinadas com sua época, da figura maternal e doce vivida por Colbert – que apresenta um único momento de maior vivacidade erótica justamente quando reencontra John – à tonitruante trilha musical de Steiner. Tudo é borrifado por gotas de melodrama e até mesmo a figura que seria um advogado do diabo diante do império dos sentimentos sucumbe à morte, por deles ter feito sufocar. Sim, tudo não deixa de ser tampouco esquemático com a eficiência econômica que somente a era clássica soube fazer uso, sendo o momento em que Elizabeth, tocada e transformada por sua última conversa com John, decide superar o passado, entregando a cigarreira – símbolo mais caro desse amor interrompido – a tia do  marido e  não mais se interpor ao sonho bélico do filho. São tão numerosas as articulações que envolve que, a contrapelo, pode-se ter o exato oposto do retrato algo róseo sugerido por seu final. A partida de Drew para o Canadá pode ser o espelhamento do trauma outrora vivido na guerra mundial anterior, pela perda do pai. Esse império dos sentimentos, por sua vez,  não deixa de se transformar no de sentidos, em última instância o que de fato interessa ao filme e ao (melo)drama não impedindo tampouco que a solução buscada seja a mais racional e sensata possível, com John imediatamente vindo a falecer após cumprido o papel sacrificial que era habitualmente destinado às mulheres – e também vivenciando a duplicidade de identidades também mais afeita à persona cinematográfica feminina, sendo o caso mais evidente de todos Um Corpo que Cai. E o papel cabe como uma luva para Welles desferir o seu tom mais racional e frio, resistindo bravamente a emotividade mais intensa de Colbert, mesmo que o preço a ser pago para tanto seja alto. Sua decisão de partir para a guerra, por mais que Elizabeth significasse tanto para ele, aliás, assim como sua indisposição em querer retornar, mesmo com o milagre das plásticas sendo capaz de torna-lo reconhecível pela antiga esposa duas décadas após, parecem destiná-lo a compreender o amor romântico como uma idealização praticamente platônica, incapaz de seguir os ritos mais triviais do cotidiano. Ele é a figura enigmática por excelência do filme. A única que não está onde deveria e sua presença parece ser uma incômoda lembrança da fácil aceitação por todos dos papeis sociais que lhes cabem. E tampouco o filme deixa de trabalhar, talvez sem grandes sutilezas, mas com grande propriedade, em temas que seriam da ordem do “inato”, aparentemente inabaladas pela ordem cultural, com o filho não só reproduzindo a mesma opção do pai como sentir uma proximidade inexplicável rapidamente com o mesmo ou Elizabeth a sentir nas mãos o toque do amor imorredouro da juventude. Provavelmente foi a primeira participação creditada de Natalie Wood, loura, em um filme do mesmo realizador em que aparecera pela primeira vez nas telas (como Noite Sem Lua). Talvez a ausência de Welles personificando John, ou presente apenas por sua inconfundível voz (e por falar em voz a do diretor é que é ouvida na transmissão radiofônica sobre as primeira notícias do que seria a Segunda Guerra) fosse mais uma tirada original, sábia e produtiva, em termos de verossimilitude. Destaque para o fluido e elegante trabalho de câmera, tirando discreto partido da profundidade de foco. International Pictures para RKO Radio Pictures. 104 minutos.


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