Filme do Dia: Um Dia Desses (2012), Travis Fine

 



Um Dia Desses (Any Day Now, EUA, 2012). Direção Travis Fine. Rot. Original Travis Fine & George Arthur Bloom. Fotografia Rachel Morrison. Música Joey Newman. Montagem Tom Cross. Dir. de arte Elizabeth Garner & Ayse Arf. Cenografia Samantha Kuester. Maquiagem e Cabelos Charlotte Scovill. Com Alan Cumming, Garrett Dillahunt, Isaac Leyva, Frances Fisher, Gregg Henry, Jamie Anne Allman, Chris Mulkey, Don Franklin.

Rudy Donatello (Cumming) se apresenta travestido em um clube gay no final dos anos 70, dublando sucessos da parada da disco music de então. Certo dia entra no local um homem, Paul Fliger (Dillahunt) e uma atração mútua imediata acontece. Eles fazem sexo na mesma noite. E passam a se encontrar com frequência. Na vizinhança da quitinete em que Rudy vive, percebe a solidão de um adolescente com síndrome de Down, Marco (Leyva), que possui uma mãe (Allman) viciada. Ao saber que Paul é advogado, ele passa a pleitear a guarda do garoto, enquanto o superior de Paul, D.A. Wilson (Mulkey), tem planos de ascensão profissional para ele. Paul fingirá ser primo de Rudy para o patrão, que os convida para uma recepção em sua casa, na qual acaba flagrando um momento de tensão entre o casal. Estão com uma guarda provisória de Marco. A partir daí se inicia uma longeva batalha judicial, assim como uma tentativa de início de carreira musical de Rudy, agora cantando suas próprias composições, por incentivo do companheiro.

Se há uma graça redentora nesta película ela responde pelo nome de Alan Cumming. É com ele e por sua interpretação que mesmo não fechando os olhos para os motivos melodramáticos habituais de sempre – como a Dora de Central do Brasil, o garoto representará à redenção  ao qual o filme pretende vender; lá como cá, são personagens assumidamente cínicos a não esperarem mais muita (ou pouca) coisa da vida – e os paralelos findam por aí, pois evidentemente o filme de Salles é de longe mais expressivo que este; e o Rudy Donatello tampouco deixa de passar um sermão por Paul permanecer dentro do armário, em mais de um momento;  estamos no final dos anos 1970, mas o seu endereço é um diálogo com o espectador de 2012 e depois; e todo o idealismo carregado  de forma maniqueísta em seu polo positivo (Rudy) e negativo e já “corrompido” pelo sucesso profissional (Paul); e como se espera, em pouco tempo esta polarização estará transformada em equilíbrio e luta em prol de um objetivo comum. Porém nada mais importa depois da melhor cena do filme, quando Cumming na pele de Donatello, após o sexo, evoca candidamente quando seu pai o pôs na equipe de futebol e ele ia ao céu quando seu coleguinha tocava seu traseiro. Infelizmente seu brilho está a serviço de uma produção que não se envergonha de colocar um personagem com síndrome de down, ferido emocionalmente e abandonado, com uma trilha musical não menos manipulativa, nos braços de Donatello. E mais: numa cena flagrada (como o espectador) por seu companheiro. Talvez seja uma estratégia de caso pensado não trazer maior concretude geográfica de onde a história ocorre, visando a “universalidade” dos sentimentos de qualquer um envolvido em semelhante situação ou – o que seria a maior parte do público – a empatia buscada. Não que não se saiba se passar nos Estados Unidos, mas poderia ser em qualquer país anglo-saxão ou Shangrilá. Se foi, é um tiro pela culatra. O casal principal é vivido por um britânico e outro americano, e embora o diretor e produção sejam americanas, lembra mais o estilo britânico de feitura de um filme, o que apenas acentua ainda mais a sensação de denegação do espaço.  E nisso o filme é bastante distinto do de Salles, muito fincado no Rio de Janeiro e depois no Nordeste. A trazer algo de mais palpável e menos abstrato. Tampouco observamos qualquer revés maior no padrão de vida do casal quando Paul perde seu emprego tão arduamente conquistado e mantido. Embora, sem dúvida, ajude a edificar ainda mais o personagem o sacrifício em nome de afetos – pelo companheiro, pelo adolescente que resolveram adotar como filho – é como se ficássemos, uma vez mais, na esfera dos sentimentos, da ética e da moral, portanto da abstração. Ao invés de problemas mais comezinhos de como ganhar a vida, como é comum no melodrama, observa-se verdadeiros videoclipes a unirem as imagens amadoras em super-8 (posteriormente observadas com fervor nostálgico e esperança de reconexão por Rudy quando perdem a guarda do garoto) ao tema musical cantado por ele. O que a união de imagens e sons nesta sequência aponta, para além da habitual manipulação emocional, é que até mesmo no campo profissional, Rudy conquista a admiração por uma das demos gravadas, por nela se encontrar contido o genuíno sentimento de amor. Dito tudo isso, surpreende seu final, antípoda do otimismo americano, porém uma vez mais passível de facilmente  ser encaixado em um filme britânico. Sobretudo após a menção à décima quarta emenda, o que faz a memória de qualquer espectador mediano evocar dezenas e dezenas de filmes ao longo de décadas, para uma reversão final como a declarar apesar de...todas as injustiças, não se deve perder fé na justiça e na América.  O título advém de uma passagem da clássica canção de The Band, I Shall Be Released, cantada de forma intensa por Rudy ao final, enquanto observamos Marco andar a esmo próximo de uma ponte. |PFM Pictures. 98 minutos.

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