Filme do Dia: Guerra Sem Regras (2024), Guy Ritchie

 


Guerra Sem Regras (The Ministry of Urgentlymanly Warfare, Reino Unido/EUA/Turquia, 2024). Direção Guy Ritchie. Rot. Adaptado Paul Tamasy, Eric Johnson, Arash Amel & Guy Ritchie, a partir do livro de Damien Lewis. Fotografia Ed Wald. Música Christopher Benstead. Montagem James Herbert. Dir. de arte Martyn John & Fiona Gavin. Cenografia Loulou Bontmps. Maquiagem e Cabelos Jules Chapman & Jacqueline Russon. Com Henry Cavill, Alan Rithcson, Alex Pettyfer, Elza González, Babs Olusanmokun, Henry Golding, Rory Kinnear, Til Schweiger, Danny Sapani.

1941. Londres é alvo dos ataques nazistas e boa parte da Europa já se encontra sob o jugo de Hitler, quando o brigadeiro Colin Gibbins (Elwes), por orientação na surdina de Churchill (Kinnear) prepara a Operação Postmaster, que pretende sabotar a frota de submarinos alemães na ilha de Fernando Po. Marjorie Stewart (González) e Richard Heron (Olusanmokun), agentes secretos, partem de trem, enquanto Gus March-Phillips (Cavil) comanda seu grupo de missionários, inicialmente em ação como falsos pescadores.

Tanta coisa é surrupiada do arsenal tarantinesco, para propósitos bem mais limitados, que chega a ser decepcionante de se ver. O efeito provocado pela montagem picotada a não deixar passar o mínimo detalhe em meio a apresentação caricatural de seus personagens (e suas motivações) e, mais ainda, com as inversões temporais; é como se estivesse sido posto na mesa um tabuleiro, com um jogo e seus objetivos. Não falta sequer a trilha sonora “assoviada” e o retorno à Segunda Guerra e aos nazistas  enquanto cenário já conhecido a auxiliar no posicionamento imediato de seus personagens (e suas motivações), como uma vez mais Tarantino (Bastardos Inglórios, inclusive com um ator deste, Schweiger). E como se não bastasse tudo isso, a “missão impossível” a ser comandada por um pequeno grupo de mercenários – dos quais o Gus de Cavill é o exemplo mais óbvio, embolsando tudo o que está à mão, em sua reunião com o alto comando britânico. E a característica de ser uma missão extraoficial, com licença para matar aos montes. E no qual o gozo da morte inimiga se encontra próximo da ideologia deste inimigo. E todo este conjunto servindo como atrativo para um ideal espectador masculino jovem contemporâneo ao seu lançamento.  E como toda uma tradição que remonta não apenas a Tarantino, mas também ao western, eles matam no atacado, sem piscarem olhos ou a respiração ofegante. E, como os índios outrora, os nazis são de uma incompetência atroz, não conseguindo ferir ninguém, nem mesmo alguém cuja pistola engasga na hora de atirar.  A obviedade de algumas situações não se deve deixar de apontar. Como a cena na qual já se imagina desde o início que Marjorie demonstrará sua superioridade no tiro em relação a Kambili, o Príncipe de Fernando Pó, e acertará de primeira a garrafa que o príncipe estava a tentar fazia tempo. Ou que Marjorie cometa um vacilo em sua apresentação.  E muito mais. Que o príncipe confabule com os aliados anti-nazi sem qualquer atuação de um serviço de inteligência destes é estupefaciente. Outra tradição mantida é a da cultura anti-institucional. Os heróis só o são por não cumprirem regras. O oficial inglês a agir dentro do protocolo e dar voz de prisão para os mercenários é quase um prolongamento da vilania nazi.  O tema mais conhecido da Ópera dos Três Vinténs, Die Moritat von Mackie Messer, é ouvido em um breve trecho. E posteriormente cantada em inglês por uma González não muito convincente em seu papel de femme fatale. Nos comentários finais, fica-se a par do casamento de Marjorie com Gus pouco após os relatos aqui descritos, uma facilidade dramática não explorada pelo filme. É curioso vir a mente o personagem de James Bond quando se fala em licença para matar, pois nos créditos finais se fica a saber com as inevitáveis fotos, que a figura de Gus serviu como base para o agente criado por Ian Fleming. |Black Bear/Jerry Bruckmeier Films/Lionsgate Films. 120 minutos.

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