Filme do Dia: O Testamento de Deus (1950), Jacques Tourneur

 


O Testamento de Deus (Stars in My Crown, EUA, 1950). Direção Jacques Tourneur. Rot. Adaptado Margaret Fitts & Joe David Brown, a partir do romance de Brown. Fotografia Charles Edgar Schoenbaum. Música Adolph Deustch. Montagem Gene Ruggiero. Dir. de arte Cedric Gibbons & Eddie Imazu. Cenografia Alfred E. Spencer & Edwin B. Willis. Figurinos Walter Plunkett. Com Joel McCrea, Ellen Drew, Dean Stockwell, Alan Hale, Lewis Stone, James Mitchell, Amanda Blake, Juano Hernandez, Ed Begley.

O pastor Josiah (McCrea) chega a pequena Walesburg, pouco após a Guerra Civil finda. Rapidamente  transforma a igreja, construída após sua vinda, em um local mais disputado que o saloon, onde realizara sua primeira pregação. Casando-se com Harriet (Drew), o pastor cria John (Stockwell), sobrinho dela, como seu filho. Uma outra influência na cidade, sobretudo após a epidemia de febre tifoide, é o filho do médico benquisto da cidade, que falece pouco após aquele retornar formado, Dr. Harris (Mitchell). Harris acusa o pastor de haver disseminado a epidemia, após tê-lo alertado para não continuar frequentado outras casas, já que John foi o primeiro caso conhecido na cidade. O pastor, com sua fé abalada após a morte de uma criança, fecha-se em copas e não mais oferece serviços religiosos, inclusive às vítimas da epidemia. John não apenas se recupera, como descobre que a fonte de seu adoecimento foi a água que provaram e não Josiah. Quando a paixão do Dr. Harris, Faith (Black) adoece gravemente, e este não possui mais esperanças, sua recuperação se dá após as orações do pastor. E uma vez mais sua fé demonstra  toda sua força quando desmobiliza o grupo da Ku KLux Klan disposto a linchar Uncle Famous (Hernandez), um escravo liberto cujas terras são o desejo do ganancioso Lon Backett (Begley), sabedor de serem ricas em mica. Além do pastor, Famous conta com o compadrio de outro branco, Jed Isbell (Hale) e sua numerosa prole.

Não há talvez narrador interno mais solícito a uma visão autocomplacente do provincianismo in natura que, ainda que com o distanciamento do tempo (cujas interpretações e distanciamentos posteriores procuram ser abafados quando afirma a cidade ainda ser a mesma, assim como ele próprio) do que o observado pelos olhos de uma criança. E o fato de sua observação inicial agregar o comentário redundante, mas tocante, de boa parte dos retratados já ter partido, ou seja, já se encontrar morta, traz uma camada de densidade retrospectiva ao quanto de vida observada ao longo do filme. E se trata de uma narrativa menos articulada em torno dos desejos de um ou dois personagens individuais, que da busca de representação de uma crônica da comunidade mais ampla. Algo não exatamente incomum na década anterior, como Bordwell ressalta, mas a exceção no modo narrativo clássico por excelência. A contraposição entre fé e ciência segue os preceitos habituais de um populismo resistente à ilustração na cultura e cinema americanos. Não deixa de ser doloroso, embora não exatamente surpreendente, observar um homem a punir pelo bom senso social, e disposto a defender o negro de estimação de boa parte da comunidade com armas e aliados, render-se ao culto de Josiah. Enfraquecendo uma visão da pretensa diversidade de pontos de vista, ao incluir na mesma sala antagonistas notórios como o principal agitador em se apossar das terras do negro e seus defensores, como se a branquitude os unisse – o velho negro liberto está de fora da igreja. E, mesmo o pastor vindo a reconhecer seu papel na disseminação da epidemia de tifo  por teimosia sua, a popularidade crescente do médico vem a ser associada com os tempos pestilentos. De quebra, ele ficará ainda liberto desta acusação, embora para todos os efeitos sua atitude fosse disseminadora e o médico estivesse coberto de razão. E este populismo se movimenta mais rápido que a peste, ainda por cima subliminarmente pondo sobre os costados do nada carismático médico, que a tantos salvara, ver sua amada ser salva não pela ciência, mas pela fé de Gray. Algo que o título em português já prenunciava. O discurso do pastor que salvará Uncle Famous é mais um de uma coleção de heróis liberais do cinema americano dos anos 50 e 60, dando voz a quem seja que estiver sendo vilipendiado, no caso em questão a um negro, uma figura tão singela quanto o Tio Tomás e não fugindo sequer da irrevogável alcunha de tio. E disposto a demonstrar agradecimento a todos os brancos praticamente que estavam dispostos a enforca-lo, o que certamente constrangeria o público negro norte-americano de sua época. Não de todo apenas ao se observar que o pretenso testamento de Tio Famous foi inventado na hora por Josiah, e este não parece tão agradecido assim por ele lhe ter salvo a vida através deste expediente.  Sinalizando igualmente para a força do discurso sentimental sobre os ódios raciais entranhados, demonstrando uma dignidade a completar sua resistência decidida.  Cópia de péssima qualidade a certamente  não fazer jus ao filme quando de seu lançamento. Algo que tem menos a ver com preservação que sua adaptação para outros formatos de imagem – o desta versão mais se aparentando ao das más cópias em VHS. |MGM. 89 minutos.

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