Filme do Dia: Lucky Baskhar (2024), Venki Atluri
Lucky Baskhar (Índia, 2024). Direção
e Rot. Original Venki Atluri. Fotografia Nimish Ravi. Música G.V. Prakash
Kumar. Montagem Navin Nooli. Dir. de arte Banglan. Figurinos Shefali Deora. Com
Dulquer Salmaan, Meenaakshi Chaudhary, Tinnu Anand, Sai Kumar, Ramki, Rajkumar
Kasireddy, Sarvadaman Banerjee, Raghu Babu, Manasa Chowdary, Sachin Kedhekar,
Rithvik, Mathew Varghese.
Em 1992,
em Bombaim, Baskhar Kumar (Salmaan) é interrogado sobre suposta fraude
financeira no Magadha Bank, onde trabalha. Três anos antes, vivendo com a
esposa Sumathi (Chaudhary), o filho Karthik (Rithvik) e o pai, inválido desde
uma negociação mal sucedida. Prahalad (Banerjee). Quando vem a perder até mesmo
sua forma de locomoção, uma lambreta, devido aos credores, sendo humilhado em
público, Baskhar decide roubar duas centenas de rúpias do banco onde trabalha e
entrega-las a Anthony (Ramki), para conseguir liberar televisões importadas
ilegalmente e vende-las, com ajuda do amigo Samba (Kasireddy). Com o apurado,
ele consegue repor a quantia retirada do banco e ficar com algum lucro. Com a
repetição da operação outras vezes, melhora a qualidade de vida familiar. Antes
de Anthony partir para os Estados Unidos, uma última operação é realizada, desta
vez envolvendo a venda de três carros importados de luxo em Goa, provocando
toda uma operação de despiste das autoridades com mendigos se fingindo de
políticos importantes e uma dançarina seduzindo os funcionários da aduana.
Quando retorna, mais uma vez bem sucedido, uma operação policial está ocorrendo
no banco. Ele pense estar relacionada com suas atividades, mas diz respeito as
falcatruas dos próprios gerentes do banco. Alguns são presos e Baskhar é alçado
a uma posição de assistente da gerência geral, aumentando substancialmente seu
salário. Sua escolha recaiu em sua honestidade e dedicação. Baskhar agora sobe
de patamar em suas negociações ilegais, fazendo uso de uma loteria e de um
restaurante comandado por sua mulher para efetuar a lavagem de dinheiro
negociado ilegalmente com os bancos. Com a riqueza crescente, torna-se
arrogante e impaciente com tudo e todos. Sumathi não pretende mais cuidar do restaurante
e diz sentir saudade do antigo Baskhar que conheceu. Seu pai consegue recuperar
a fala, e lhe admoesta sobre os riscos da ganância, demonstrando estar a par
dos negócios escusos do filho. E Samba, preso, é libertado por Baskhar,
praticamente sem mais nada. O golpe de misericórdia no aparente retorno de
Baskhar foi descobrir cartas bancárias falsificadas, que levam a morte o
gerente geral do banco que negociava com o Magadha, Hariharan (Varghese).
Baskhar denuncia a fraude às autoridades indianas e transfere o dinheiro de
suas operações ilegais para o banco, pedindo demissão do mesmo, após uma
conversa tensa com seus executivos, que pretendem continuar com a fraude. O que
eles não sabiam é que Baskhar já havia fechado sua conta um dia antes e
transferido seu dinheiro para a compra de um hotel nos Estados Unidos, mudando
com sua família para lá.
A
apresentação dos personagens e de si mesmo é feita por Baskhar, a figura do
pobre injustiçado, que já povoa o cinema indiano há algumas gerações. Antes
dele, há uma longa exortação de não se basear em eventos reais, quase a nos
fazer suspeitar do oposto. E também uma advertência de ser falado em telugo,
embora se passe em Bombaim, para efeitos de público – e se fica com a impressão
de ser dublado. Quando Baskhar olha de maneira estranha para fora do quadro,
onde o filho se encontra, em meio a outras crianças e um músico que parece
encantá-las, tememos pelo pior. E é o que se sucede. Uma canção começa a ser
entoada, logo seguida por uma espécie de clipe a fugir estritamente do local
onde se encontram. E durante boa e maior parte da narrativa os números musicais
são esquecidos. E ninguém sente muita falta deles. Chega a ser plenamente
risível a cena como todos param suas vidas e assistem embasbacados e em
profundo silêncio e expressão atenta a humilhação sofrida por Baskhar pelo
sogro/ogro credor, a lhe levar até sua lambreta. Depois de já ter sido
humilhado às lágrimas na empresa onde se considera o melhor dos funcionários.
“Isto é a Índia” afirma Baskhar, a certo momento, “se você deseja respeito, necessita
mostrá-lo em seu corpo”, com sinais de itens muito caros de consumo. Poderia
servir como estocada para a classe novo-rica de esbanjadores perdulários do
país, mas antes parece unir a uma cultura de ressentimento – identificação
maior para a maior parte do público com certeza – o desejo de vingá-la
demonstrando seu poder abissal de consumo. Sua montagem é tão frenética quanto
as operações que vão multiplicando a fortuna de Baskhar. A falta de sutileza é
um predicado a acompanhar boa parte da produção indiana, mesmo a fração
relativamente pequeníssima a furar os entraves e ser distribuída e minimamente
reconhecida no Ocidente, como é o caso desta. Um exemplo: o sucesso e
arrogância sobem a cabeça de Baskhar, que passa a destratar a todos, inclusive
sua amada esposa. Não muito depois, no entanto, o castelo de cartas no qual
havia instituído sua fortuna é rapidamente desmoronado pela visita de um
banqueiro acusando fraude nas negociações e uso do carimbo de sua instituição,
que pode levar a bancarrota todo o sistema financeiro indiano. Como se não
bastasse, todos os indícios que o banqueiro terá um colapso cardíaco logo após
não precisavam resultar em sua imagem com olhos atravessados, estertorando no
chão. Outro exemplo: Sumathi, a esposa,
quebrando tudo que encontra pela frente na loja de alimentos. E, uma vez mais,
o drama conjugal, tal como a humilhação do cunhado, é acompanhada estaticamente
por toda a multidão de vizinhos. E, ao chegar em casa, seu pai, entrevado desde
um derrame, volta falar porque, lógico, precisa dar uma lição de moral no filho
inescrupulosamente arrivista – embora as condições de melhora do pai tenham se
dado, ao menos indiretamente, ao ganho ilegalmente pelo filho. Até para que a
lição de moral fosse veiculada, portanto, era necessário o enriquecimento
ilícito. E, de uma forma raramente discreta, o presidente do banco fará uma
eulogia de um Baskhar a retornar a ser um simples homem de classe média, e
respeitável como ela, não importa o quão explorada seja pelo corrupto sistema
financeiro. Certo? Não, é reservado um final em reviravolta uma vez mais com a
situação de Baskhar. Ainda que sob a inconsistência de uma aparente reviravolta
em sua personalidade, de volta a humildade prévia dos tempos de pobretão.
Dentro da personalidade esquizóide apresentada pelo filme, o Baskhar final
seria o equilíbrio dos dois observados ao longo da narrativa ou um retorno ao tipo
arrogante – e o refrão insistente com seu nome seria uma aproximação sonora de Lucky
Bastard? Para não falar do próprio ethos do cinema indiano, embora
uma consideração provisória diante da ignorância da maior parte mesmo dos
filmes de maior destaque produzidos no país. De toda forma, e com estas
contradições postas, ao menos não se cai na duradoura fantasia da fortuna sendo
erigida em cima de propósitos idealistas e escrupulosos, como em Frank Capra.
|Fortune Four Cinemas/Sithara Ent. 148 minutos.![]()

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