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domingo, 8 de abril de 2018

Filme do Dia: O Céu Que Nos Protege (1990), Bernardo Bertolucci


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O Céu Que Nos Protege (The Sheltering Sky, Reino Unido/Itália,1990). Direção: Bernardo Bertolucci. Rot. adaptado: Bernardo Bertolucci & Mark Peploe, baseado no romance homônimo de  Paul Bowles. Fotografia: Vittorio Storaro. Música: Richard Horowitz &  Ryuichi Sakamoto. Montagem: Gabriella Cristiani. Dir. de arte: Gianni Silvestri. Figurinos: James Acheson. Com: Debra Winger, John Malkovich, Campbell Scott, Jill Bennett, Timothy Spall, Eric Vu-Na, Philippe Morier-Genoud, Afifi Mohamed, Carolyn De Fonseca.
        O Casal Kit (Winger) e Port (Malkovich) Moresby resolvem passar uma temporada na África saariana, levando a tiracolo o amigo Tunner (Scott). Provenientes de uma elite americana culturalmente sofisticada e um tanto quanto vazia – ele escritor bissexto, ela tendo escrito uma peça há muitos anos - já do início afirmam que são viajantes e não turistas, delimitando o abismo que distancia entre aquele que apenas pretende passar alguns dias no país e ter uma noção do exotismo de uma cultura diferenciada e o estrangeiro que não possui previsão sobre o tempo de permanência e pretende uma interação maior com o meio. Logo nos primeiros dias, Port é levado a uma prostituta local de fartos seios, que tenta lhe roubar, enquanto sua mulher lhe trai com Tunner, a quem lhe revelara nutrir uma grande desconfiança. Também estrangeiros e também fazendo um percurso semelhante se encontram o feminino e decadente Eric Lyle (Timothy Spall) e sua mãe (Bennett). Quando Port comunica que conseguira uma carona com os Lyle, que possuem carro o que aumenta a segurança e diminui o tempo de viagem, para o início de sua excursão pelo Marrocos, Kit lhe surpreende ao afirmar que pretende ir de trem com Tunner. Os três hospedam-se  em quartos separados. Ciente da influência cada vez maior de Tunner sobre Kit, Port reverte o próximo trajeto, fazendo com que Tunner vá de carro com os Lyle e “descobrindo” apenas tardiamente a existência de uma linha de ônibus. Logo, no entanto, Port descobre que teve seu passaporte roubado por Eric Lyle e, pior de tudo, contrai tifo. Progressivamente sua saúde se deteriora e Kit, mesmo começando a entrar em pânico, vela por sua longa agonia. Após sua morte, abandona o cadáver no rústico hotel onde se hospedavam e anda sem destino até encontrar o árabe Belqassim (Vu-Na) e seu grupo de beduínos que a levam até sua aldeia. Tunner encontra a cova de Port e evita contato com os Lyle, que casualmente se encontram no mesmo local. Kit torna-se mulher de Belqassim, mas logo o abandona e é tripudiada pela população em um mercado local, ao tentar comprar algo com dinheiro francês. É encontrada em um hospital, em estado de choque e recebe a visita da representante da embaixada americana, a Srta. Ferry (De Fonseca), que lhe conta que quem pediu que se iniciassem as buscas foi Tunner, que provavelmente já se encontra na cidade para recebê-la. Porém ela foge de seu encontro e vai parar no saguão do hotel onde tudo começou.
        Embora a bela abertura, com imagens de arquivo de Manhattan associada a bela trilha de Horowitz & Sakamoto nos sugiram uma expectativa maior do que o filme nos proporciona, suas várias fraquezas não chegam a comprometê-lo de todo. Entre elas se encontra uma pretensão de traduzir em imagens e diálogos a veia essencialmente existencialista do livro, de cunho autobiográfico, de Bowles. Tal pretensão esbarra em obstáculos como as interpretações em muitos momentos não convincentes dos atores e até mesmo a excessiva estilização das locações, ainda  que as filmagens tenham sido efetuadas em locais semelhantes ao que se desenrola a trama do livro. E o fato dos momentos mais tocantes do filme serem os comentários – por sua própria natureza, literários - que o próprio autor faz sobre os personagens no início e no final apenas depõem contra o mesmo. No início em uma frase que sintetiza todo o drama que ainda irá se desenrolar quando afirma que Kit e Port “chegaram ao erro fatal de considerar o tempo como não existente. Um ano era como o outro. A seu tempo, tudo iria acontecer”, se evidencia a eminência trágica que rondava o frágil espírito de autocondescendência e fruição sensória dos protagonistas. E no tocante final, em que o personagem se desloca até o seu criador, e este lhe confessa que “consideramos a vida um poço inesgotável, porque não sabemos quando vamos morrer. No entanto, tudo acontece apenas um certo número de vezes. Um pequeno número. Quantas vezes mais você se lembrará de uma certa tarde de sua infância? Uma tarde que está tão profundamente enraizada em seu ser? Talvez umas quatro ou cinco vezes. Talvez nem isso. Quantas vezes ainda vai olhar a lua cheia nascendo? Talvez vinte. E, no entanto, tudo parece infinito.” Enigmática se torna a mudança radical que vivencia Kit, de mulher autônoma que não chega a dividir o quarto com o marido e capaz de viver uma relação extra-conjugal a seu lado a uma entre outras mulheres submissas de um nativo, como que evidenciando quão pouco sólidas são a construção de nossas identidades. Aldrich Group/Film Trustees Lmtd/RPC/Sahara Company/TAO Film. 138 minutos.