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quinta-feira, 19 de abril de 2018

Filme do Dia: Pearls of the Deep (1965), Vera Chytilová, Jaromil Jires, Jiri Menzel, Jan Nemec & Evald Schorm


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Pearls of the Deep (Perlicky na Dne, Tchecoslováquia, 1966). Direção: Vera Chytilová (Automat Svet), Jaromil Jires (Romance), Jirí Menzel (Smrt pana Baltazara), Jan Nemec (Podvodníci) & Evald Schorm (Dum Radosti). Rot. adaptado: Vera Chytilová, Jaromil Jires, Jirí Menzel, Jan Nemec & Evald Schorm, baseado em contos de Bohumil Hrabal. Fotografia: Jaroslav Kucera. Música: Jan Klusák & Jirí Sust. Montagem: Miroslav Hájek & Jirina Lukesová. Com: Vladimir Boudník, Frantisek Havel, Ales Kosnar, Ivan Vyskocil.
Smrt pana Baltazara. Um casal se dirige em seu automóvel antigo para um autódromo aonde ocorrerá uma importante corrida de motos. Podvodníci. Dois artistas talentosos no passado se confrontam no final da vida. Um deles é escritor. O outro se dizia um dos grandes talentos da opereta tcheca, ainda que os funcionários do hospital somente tenham encontrado registro de sua participação no coro. Dum Radosti. Um pintor que utiliza as paredes de sua casa para expressar sua arte, que brota espontaneamente dos sonhos, recebe a visita de dois oficiais do governo. Automat Svet.  Em um bar onde uma garota se suicidou se celebra um animado casamento. Devido ao noivo ter sido considerado suspeito e levado para a delegacia, a noiva decide levar a noite de núpcias com um policial. Romance. Um jovem se enamora de uma garota cigana e vivem um juntos noite de amor e de expectativas para o futuro. No dia seguinte, ele a vai deixar no acampamento onde mora sua família.
Há uma evidente dívida para com a Nouvelle Vague, algo que fica patente já a partir do primeiro episódio, com travellings do sol escondido semi-oculto por entre árvores de copas elevadas, seqüência um tanto quanto evocativa de Acossado. Some-se a isso uma estética pseudo-documental, soberbamente registrada pela belíssima fotografia em p&b e uma certa ênfase no absurdo. E tal influência permanece visível ao longo do filme. Talvez ela se encontre menos presente no curta assinado por Nemec, notável pela utilização original dos primeiros planos da dupla protagonista. Sua ironia final, tipicamente anti-oficial, contrapõe a fala de um médico afirmando que tudo irá ocorrer bem com o novo paciente internado enquanto logo depois acompanhamos o traslado com o caixão do cantor de óperas – a frieza com que se descreve o evento e seu tom, ao menos ao final, anti-estabelishment, sugerem uma comparação com o posterior Titicut Follies (1968), documentário de Frederick Wiseman. Tanto no caso do realizador norte-americano quanto de Nemec, trata-se de ressaltar o quanto o elemento humano fica esmaecido quando passa a ser tido quase de uma mera estatística a quem se deve tratar. Destaque para a boa dupla de atores, talvez a mais afinada de todo o elenco do filme. O curta seguinte, o único colorido e com uma estética mais próxima das realizações futuras de Chytilová, possui ainda um tom de desforra com a autoridade estatal mais explícita, parecendo ser um comentário sobre as relações entre essa e o sempre premente desejo de liberdade do mundo artístico. Em Automat Svet, Chytilová tocará em outra dimensão trazida pela Nouvelle Vague, a da maior liberdade com relação à abordagem da sexualidade, sobretudo no caso aqui uma vanguardista posição em relação ao desejo feminino, expresso em termos estéticos em suas bela utilização de trucagens com uso de stop motion. Tal abordagem mais próxima da intimidade e da sexualidade será mais presente de todas no último curta, Romance, talvez igualmente o mais bem sucedido em sua por vezes pungente expressão da sensibilidade do universo de seus personagens sem precisar apelar para motivos mais abertamente marcados na elaboração visual ou de apelo pretensamente bizarro ou surrealista como boa parte dos outros. O modelo de curtas agrupados em longa-metragem, era uma das coqueluches do momento na indústria cinematográfica, sobretudo européia e de cunho autoral. Ceskoslovenský Stání Film.105 minutos.