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sexta-feira, 27 de abril de 2018

Título do Filme: Enforcamento (1968), Nagisa Oshima


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Enforcamento (Koshikei, Japão, 1968). Direção: Nagisa Oshima. Rot. Original: Michinori Fukao, Nagisa Oshima, Mamoru Sasaki & Tsutomu Tamura. Fotografia: Yasuhiro Yashioka. Música: Hikaru Hayashi. Montagem: Keiichi Uraoka. Dir. de arte: Jusho Toda. Com: Do Yun-yu, Kei Sato, Fumio Watanabe, Toshirô Ishido, Masao Adashi, Rokko Toura, Hosei Komatsu, Masao Matsuda, Akiko Koyama.
Condenado à morte, um jovem coreano (Yun-yu) de 22 anos, sobrevive à execução. O que será feito de seu destino é o que ficam se perguntando as mais diversas autoridades jurídicas, eclesiásticas e prisionais.
Esse filme-ensaio, produzido no auge da verve liberal-progressista e formalmente não naturalista de Oshima, apesar de mais que ocasionalmente arrastado e aborrecido, consegue colher muitos dos louros que planta ao final. O que há de pior nele, que já inicia com cartelas que questionam sobre a pena de morte, é o tom meio colegial com o qual pretende analisar, de modo pretensioso, diversas facetas morais da sociedade sobre o tema. Principalmente na caracterização/caricaturização efetivada logo ao início, que tampouco cumpre com suas pretensões cômicas. O que há de melhor é o seu aberto anti-naturalismo, que consegue excelentes momentos, como o que o protagonista se encontra deitado ao lado de sua irmã, e finalmente confessa todos os seus crimes, enquanto todos aqueles que há horas buscavam a confissão dele, encontram-se por demais embriagados (literalmente) com suas próprias torpezas. Calcado em uma estrutura evocativa de uma peça teatral,  tantos por suas interpretações como por acomodar a maior parte da ação na casa onde se sucedem a efetivação das penas capitais, o filme desconstrói a expectativa gerada por seu prólogo aéreo documental que apresenta do alto a referida casa, passando depois a se deter detalhadamente na descrição (com narração off do próprio Oshima) objetiva de seus aposentos. Tudo isso somente dura até o momento em que o mecanismo de execução falha. A partir daí o que havia de documental-realista é substituído por um tom farsesco-alegórico que o acompanha até o final. Há na construção desse caráter de farsa uma evidente dimensão absurda de viés kafkiano, sendo o nome do personagem R. É através da relação de R. com a memória aparentemente perdida na mal sucedida primeira execução que a narrativa progride, senso que é destacado pelas próprias cartelas que são inseridas como pontuação. É mais do que evidente que Oshima toca aqui não apenas em questões abstratas e universais que dizem respeito ao próprio tema-chave como igualmente em não menos polêmicos motivos endereçados diretamente ao passado e presente do país, como é o caso da problemática relação com a Coréia. E tampouco a obsessiva representação da verdadeira corte que circunda o condenado deixa de ser uma alegoria não apenas dos papéis sociais aos quais o indivíduo se adéqua como da própria representação artística, ganhando um dos personagens o verdadeiro foro de “dirigir” uma reconstituição dos eventos, tal e qual um encenador ou cineasta. Sua obsessão é tão grande que consegue visualizar as de seu “personagem” e ainda fazer com que outros também participem do “encantamento”, numa evidente metáfora do próprio mecanismo da narrativa dramática. Destaque para o afinado elenco, sobretudo o ator que vivencia o protagonista. E, no plano das idéias, para a sofisticada concepção de nação como abstração que irrompe subitamente da boca do condenado. Aliás, a “amnésia” vivida pelo protagonista, faz dele o veículo ideal para que Oshima questione ironicamente com muitos lugares comuns. Art Theatre Guild/Sozosha para Art Theatre Guild. 117 minutos.

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