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terça-feira, 3 de abril de 2018

Filme do Dia: Caterpillar (2010), Kôji Wakamatsu


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Caterpillar (Kyatapirâ, Japão, 2010). Direção: Kôji Wakamatsu. Rot. Original: Hisako Kurosawa & Masao Adachi.  Fotografia: Yoshihisa Toda & Tomohiko Tsuji. Música: Sally Kubota & Yumi Okada. Montagem: Shûichi Kakesu. Dir. de arte: Hiromi Nozawa. Figurinos: Makie Miyamoto. Com: Shinobu Terajima, Keigo Kasuya, Emi Masuda, Sabu Kawahara, Maki Ishikawa, Gô Jibiki, Arata, Katsuyuki Shinohara.
Japão, 1940. Shigeko Kurokawa (Terajima) retorna à casa surdo, praticamente sem condições de falar e sem os membros superiores e inferiores, resultado de sua participação na Segunda Guerra Sino-Japonesa, que lhe legou o título de “deus da guerra”. Sua esposa, Tadashi (Kasuya), desesperada com o que vê, corre revoltada. Aos poucos, também auxiliada pelas oferendas trazidas pela população, Tadashi tenta seguir com a vida, desdobrando-se entre as plantações de arroz e os árduos esforços para cuidar do marido. Certas vezes o leva consigo para o trabalho ou para algum passeio. As dificuldades crescentes, o destratamento e o egoísmo de Shigeko, por vezes devorando sozinho a comida, assim como seus pedidos por sexo, e toda a reverência prestada pelas pessoas a Shigeko, torna crescentemente tensa a relação entre ambos, que explode em seguidas agressões que Tadashi passa a lhe infligir. No dia em que o Japão se rende, enquanto muitos comemoram Shigeko consegue se deslocar sozinho até um tanque e se jogar nele.
Wakamatsu, a partir de um estilo relativamente simples e de uma opção dramática pelo relativo distanciamento emocional, talvez comprometido apenas pelo uso da trilha musical, enfatizado pela inserção de cenas de batalhas de cinejornais e pela presença do texto escrito sobre a imagem e a narração que comenta sobre episódios-chaves para o Japão na Segunda Guerra, constrói um poderoso e complexo jogo de ações e reações, a partir do drama vivenciado pelo casal. Nesse jogo dimensões múltiplas entram em questão, desde a relação de poder entre gêneros (boa parte da violência perpetrada pela esposa foi alimentada pelo tratamento brutal que recebeu dele, antes de sofrer os efeitos do combate), até a relação entre indíviduo e sociedade (o conflito crescente entre os papéis social e particular vivenciados pela esposa e sua catarse perversa, no momento em que ela espatifa os ovos ganhos de presente para o “deus da guerra” em seu rosto). O que talvez diferencie a obra de Wakamatsu com relação a produções internacionais realizadas na mesma década (tais como Cartas de Iwo Jima) também ambientadas no Japão durante o mesmo período, seja o bem mais nuançado espectro ideológico com que os japoneses são observados através de sua protagonista, única personagem ao qual se tem pleno acesso, para além das epidérmicas convenções sociais. Não se enfatiza nem um nacionalismo de fachada, simulado apenas enquanto forma de sobrevivência, mas sem qualquer sustentação real, mas tampouco se observa uma completa submissão aos códigos culturais impostos pela sociedade. É justamente no tráfego entre um e outro que Tadashi se equilibra, ainda que se aponte para uma crescente “conscientização” dela que torna-o mais próximo de uma representação ortodoxa da emancipação feminina de valores arcaicos, ao menos em germe. Wakamatsu Production. 85 minutos.