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sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Filme do Dia: Boudu Salvo das Águas (1932), Jean Renoir


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Boudu Salvo das Águas (Boudu sauvé des eaux, França, 1932). Direção: Jean Renoir. Roteiro Adaptado: Jean Renoir& Albert Valentin, baseado na peça de  René Fauchois. Fotografia: Marcel Lucien. Música: Léo Daniderff&Raphael. Montagem: Marguerite Renoir & Suzanne de Troeye. Com:  Michel Simon, Charles Granval,  Marcelle Hainia,  Severine Lerczinska,  Jean Gehret,  Max Dalban,  Jean Dasté,  Jacques Becker.
         Monsieur Lestingois (Granval) é o típico bom burguês. Dono de uma loja de livros usados, seu espiríto cristão se contrapõe à mentalidade racional-capitalista da mulher. E quando ela se afasta, deixando estarrecido o estudante que pretende comprar um livro de Balzac, ele lhe dá este e outro livro às escondidas, tendo como argumento, que ama a juventude. O que Madame Lestingois (Hainia) não sabe, é que além de pio, seu marido a trai quase que diariamente com a  jovem empregada Anne-Marie (Lerczinska), que se orgulha de não ser como suas amigas, que possuem como parceiros um tolo soldado e um carvoeiro. Voyeur incorrigível, Monsieur Lestingois, descobre em suas incursões pelos transeuntes, um mendigo que lhe chama a atenção pela beleza física, e que pula da ponte. Extremamente chocado com o que viu, Lestingois corre e se joga no Sena, salvando o mendigo. Após levá-lo para sua casa, procurando se livrar da turba que o rodeia, Lestingois consegue reviver o mendigo, Boudu (Simon). Esse, no entanto, longe de ficar feliz ou agradecido por Lestingois tê-lo salvo, torna-se uma pedra no sapato de seu salvador. Reclama da sua mulher, que diz o incomodá-lo com sua presença, da roupa que Lestingois lhe traz, por não ser adequada para seu tamanho e da sopa que lhe está sendo preparada, além do que com sua despreocupação, utiliza o caro lenço de madame para limpar a graxa de seus sapatos, transforma a cozinha num chiqueiro e impede que Lestingois consiga prosseguir com seus encontros com Anne-Marie, dormindo no chão, no meio do percurso, porque se diz incomodado com o conforto da cama. Embora tanto madame quanto Lestingois já pensem em uma forma de se livrar de Boudu, esse profundamente transtornado com o fato de Boudu ter cuspido em uma edição rara de Balzac, o espírito humanista de Lestingois o impede de tomar uma decisão de imediato, sempre disposto a servir Boudu, seja lhe entregando um dos bilhetes de loteria que comprou ou lhe pagando para ir ao barbeiro. Após uma transformação, cortando a barba e vestindo-se com terno, Boudu conquista não só Anne-Marie como a mulher de Lestingois. Toda a farsa rui quando Lestingois em um encontro furtivo com Anne-Marie se encosta na porta que dá acesso ao aposento vizinho, e flagra Boudu com madame. Boudu ganha na loteria e afirma que casará com Anne-Marie. Quando todos pensam que ele agora se ajustará aos bons modos da sociedade e se transformará numa cidadão respeitável, após a cerimônia faz com que a canoa vire e consiga fugir. Troca suas roupas elegantes pela roupa puída de um espantalho e volta a mendigar. Consternada, Anne-Marie se interroga se ele fugiu ou morreu, sendo consolado por Lestingois, que por sua vez também abraça a sua mulher.
           Renoir, sem muitas sutilezas, partindo de uma peça teatral, realizou uma sátira à hipocrisia burguesa pouco usual para os padrões da época. É a figura de Boudu,  que não concretiza o papel de “bom selvagem” que Lestingois pretendia para ele, subvertendo e desestabilizando toda uma vida de falsas aparências e respeitabilidade, já que seus modos grotescos, longe de se enquadrarem no padrão de higiene e moral burgueses, antes os confronta. Grandemente moralista, ainda que com o sinal invertido, Renoir apresenta a figura do mendigo edificada por uma ética incorruptível, em que o dinheiro está longe de ser primordial. Ao se encontrar desconsolado em um parque, logo no início, procurando pelo cachorro que fizera amizade há pouco, e receber uma esmola, ele entrega para  o burguês a quem abre a porta do carro de luxo. Da mesma forma pouco lhe interessa uma mudança de status com o prêmio milionário recebido. Com sua habitualmente talentosa direção de atores, Renoir aqui também explora em muitos momentos a profundidade de campo e até, em raros momentos, a profundidade de foco. Cenas como a que Anne Marie fala da janela com alguém no prédio vizinho seriam rememoradas por Truffaut, ao longo de sua carreira, acentuando seu caráter fake, em  Noite Americana (1974). Por sua vez, Chabrol faria uma referência terna a Renoir em seu segundo filme, Os Primos (1959), na personagem do livreiro que também não se importa que o estudante leve alguns livros sem pagar. O próprio Renoir já é um dos primeiros exemplos de que o cinema na sua época já possuía história o suficiente para ser evocado. Quando Boudu encerra sua curta carreira de burguês com chapéu coco e andar trôpego, logo associamos sua imagem com o vagabundo de Chaplin. Sua sátira aos valores burgueses, assim como particularmente, sua recusa a descrever os marginalizados como meros receptores de uma identidade orientadas pelos valores burgueses e cristãos, de comiserabilidade, pode ser comparada a de Buñuel em Viridiana (1961), embora aqui o final acene para uma provável reestruturação da ordem, com cada qual novamente no seu local “legítimo”, que não é presente no filme espanhol. Algumas imagens de um barco no Sena, assim como o casamento entre Anne-Marie e Boudu e a presença de Jean Dasté em uma ponta logo nos fazem lembrar L’Atalante (1934), de Jean Vigo. Essa versão exibida na TV provavelmente é a americana, já que a francesa conta com 10 minutos adicionais.  Pathé Films/Sirius. 81 minutos