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quarta-feira, 6 de abril de 2016

Filme do Dia: O Homem Não é um Pássaro (1965), Dusan Makavejev


O Homem não é um Pássaro Poster


O Homem Não é um Pássaro (Covek nije Tica, Iuguslávia, 1965). Direção e Rot. Original: Dusan Makavejev. Fotografia: Aleksandar Petkovic. Música: Petar Bergamo. Montagem: Ljubica Nesic. Dir. de arte: Dragoljub Ivkov & Milenko Jeremic. Com: Milena Dravic, Janez Vhrovec, Eva Ras, Stole Arandjelovic, Boris Dvornik, Dusan Antonijevic, Mirjana Blascovic, Mirko Todorovic.
O engenheiro de obras Jan Rudinski (Arandjelovic) chega para trabalhar num enorme canteiro de obras de uma gigantesca indústria de minério, passando a morar no pobre e sujo bairro, sendo inquilino da família da bela e jovem Rajka (Dravic), uma cabeleireira, com quem se envolve afetivamente. Quando Jan recebe o auge de seu reconhecimento profissional, sendo premiado diante de todos os operários, Rajka se entrega aos apelos do jovem motorista de caminhão (Dvornki), que freqüenta o seu salão.
Esse belo e algo disperso filme anterior a celebridade internacional de Makavejev parece conter boa dose da crítica social (mais que a presente no realizador tcheco contemporâneo posteriormente também alçado à fama internacional, Milos Forman, em filmes como Os Amores de uma Loira) e de referências a uma sexualidade transbordante que é associada aos novos cinemas do Leste Europeu. O teor de crítica social, para além de sua ambientação em um bairro sujo e miserável, que não parece demonstrar tão grande avanço dessas em relação a situação anterior da guerra mundial (ao contrário do que apresenta o discurso de uma guia que apresenta a um grupo de escolares o universo da indústria, numa clara ausência de sincronia  entre o discurso e as imagens) como retrato das mas condições das classes populares é explicitado sobretudo no momento em que uma das personagens associa o número de hipnotismo que causa sensação no bairro ao domínio duplo sofrido pelas mulheres, das autoridades e de uma enraizada misoginia. Porém, já se encontra contido no próprio título, que vai contra justamente a situação de submissão ao hipnotizador que faz com que as pessoas imitem ridiculamente pássaros. A crítica ao machismo é, no entanto, mais forte que ao sistema político, muito provavelmente em temor à censura, e torna-se um espelhamento da outra. Os exemplos ao longo do filme são muitos, como o da submissão de uma mulher ao seu marido cruel e alcoólatra, num subenredo que não chega a ser bem desenvolvido ou ter uma relação mais orgânica com o filme como um todo e mesmo o da protagonista que, portadora de uma permissividade bem mais ampla, tampouco deixa de sofrer agressões dos pais, quando esses descobrem que está se relacionando com o inquilino. Em um dos momentos que parece antecipar o estilo mais ousado de seus documentários posteriores (Inocência Desprotegida, W.R. – Os Segredos do Organismo), ouve-se uma narração off que tece loas às novas condições da classe trabalhadora que se chocam com o brutal esforço que o trabalhador empreende. Porém, o que se tornaria um efeito radical, a utilização de uma narração tipicamente documental em um filme de ficção, sem explicitação sobre qual a origem da mesma acaba ao final da seqüência sendo revelada como a do guia que orienta os escolares, como já referido. Inicia com um plano em câmera baixa já desconcertante do que aparenta ser um homem usando um enorme chapéu e que, na verdade, descobrir-se-á ser uma antecipação da conferência do hipnotizador. É interessante o quanto o protagonista, mesmo não sendo ridicularizado, tampouco se aproxima de compartilhar da premissa libertária do filme. Nesse sentido, pode-se pensar que à metáfora do título cabe um duplo sentido, completamente assimétrico, já que ao mesmo tempo que representa o já referido ato de sumbissão ao hipnotizador, igualmente serve como rude admoestação do protagonista a um jovem e sonhador subordinado seu que faz do instrumento de trabalho um balanço. Aqui, ser como um pássaro significa liberdade e um ato de confronto anárquico à submissão do trabalho/sistema. O título, portanto, sob essa perspectiva, vem justamente afirmar que não há liberdade na sociedade iuguslava contemporânea.  A então bela e jovem Dravic, com longeva carreira no cinema iuguslavo e, posteriormente, sérvio, ainda atuando, mais de 40 anos após esse filme, possui cerca de 150 filmes em seu currículo.  Avala Film. 81 minutos.


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