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sábado, 16 de abril de 2016

Filme do Dia: Deus Branco (1928), W.S.Van Dyke

Deus Branco Poster

Deus Branco (White Shadows in the South Seas, EUA, 1928). Direção: W.S. Van Dyke. Rot. Adaptado: Ray Cunningham,  Ray Doyle & John Colton a partir do romance Frederick O’Brien. Fotografia: Clyde De Vinna, George Gordon Nogle & Bob Roberts. Música: William Axt. Montagem: Ben Lewis. Com: Monte Blue, Raquel Torres, Robert Anderson, Renee Bush, Dorothy King, Napua.
O Dr. Matthew Lloyd (Blue) vive insatisfeito com as condições de exploração dos nativos polinésios pelos homens brancos, que fazem uso de todas as artimanhas para conseguir perólas, a custa de muitas vidas, sob o comando do inescrupuloso Sebastian (Anderson). Lloyd cai numa armadilha organizada por Sebastian e se vê abandonado em um navio cheio de vítimas da peste bubônica. Uma tempestade irrompe e Matthew acorda em terra, observando uma cabana relativamente próxima. Quando se aproxima do local observa todo um grupo de nativos que não tiveram qualquer contato com a civilização branca.  A mulher que o descobre e alerta a tribo é a jovem e bela Fayaway (Torres). Considerado pela tribo como uma divindada, por sua pele branca, festejos são realizados para celebrar sua chegada. Quando tenta uma aproximação maior de Fayaway é escorraçado por seu pai, o líder do grupo, que afirma ser Fayaway uma virgem-tabu. A situação muda de figura quando Matthew percebe vida no pequeno irmão de Fayaway que era dado como morto, inclusive por ele mesmo. O pai afirma que o tabu fora quebrado. A situação de vida paradisíaca finda momentaneamente quando Matthew se vê tentado pelas pérolas que os nativos descartam das ostras. Ele próprio passa a mergulhar atrás delas e começa a dar pouca atenção a Fayaway, que o descobre furtivo fazendo fogueira para que navios o encontrem. Quando percebe a tristeza da mulher, decide jogar fora as perolas e valorizar a vida que leva. Porém o fogo que fizera chamara a atenção da embarcação de Sebastian, que se aproxima do local para um primeiro contato e quando descobre uma pérola no colar de uma nativa, decide se fixar na ilha. Matthew tenta, em vão, alertar os nativos contra os riscos do grupo. Numa altercação com Sebastian, é atingido por um de seus homens e morre pouco após. Mesmo contra os desígnios do chefe da tribo, pouco tempo depois a realidade da vida na comunidade é em tudo semelhante a que Matthew morava antes de sua aventura forçada pelos mares.
Os planos iniciais em locações polinésias foram aparentemente filmados por Flaherty, considerado por Hollywood o grande explorador de “locais exóticos” desde o sucesso de seu Nanook, o Esquimó (1922). Chama mais a atenção que as tomadas panorâmicas, algumas aéreas, do atol onde se desenrola a narrativa, a exuberante fluidez dos planos mais fechados que se seguem, apresentando os nativos em suas atividades na terra a partir de uma perspectiva de uma embarcação, em planos-sequencia virtuosamente coreografados – estratégia visual que se repetirá, de forma mais modesta, no primeiro idílio amoroso entre Mathew e Fayaway. Ao contrário da habitual perspectiva do colonizador branco como virtuoso e ético, o filme desde antes de ingressar em sua história propriamente dita, já ressalta o quanto a presença dos brancos fora determinante para a corrupção da população nativa, ou seja, a perspectiva do “bom selvagem”, a seu modo não tão distinta da presente na obra do próprio Flaherty, mesmo que de modo bem menos esquemático que aqui – com contrastes patéticos como o do lamento do pai que perde o filho contraposto por uma cena festiva de música e dança em um bar a poucos metros da cena fatal. E é interessante como o filme constrói essa consciência para além dos comentários extra-diegéticos iniciais, incorporados na própria figura do médico decadente e alcoólatra que se diz envergonhado do que a raça branca fez aos nativos.  E ainda mais surpreendente que este personagem seja justamente o elo de ligação com o que a narração do filme sustenta como ético, antecipando soluções similares – porém menos enfáticas – posteriores como a do médico igualmente com uma queda pela bebida em Brutalidade (1947), de Jules Dassin. Pouco tempo depois, no entanto, ironia das ironias, o náufrago se verá entre nativos que nunca tiveram contato com a civilização branca, e será adorado como o “deus branco” do título brasileiro. Embora tal título não seja de todo descabido, o original traz bem mais elementos que neutralizam tal admiração, sem esquecer que é o próprio Matthew que involuntariamente acende a fogueira que gerará o caminho para o contato com os brancos (e, consequentemente, sua própria morte). E se a morte dele surge como mais digna, transformando-o em algo como um mártir do que a morte em vida que levava anteriormente,  nada do antigo culto a sua pessoa parece presente na situação atual da comunidade, ou seja, suas lembranças ficaram restritas a sua amada, tão imersa parece a população nas práticas que a exploram.  E a exploração de elementos exóticos como a sensualidade nativa feminina representada pelo riso coquete de uma das “selvagens”, justamente a que se apaixona pelo branco (vivida pela sex symbol de curta carreira Torres) assim como pela massagem coletiva proporcionada por várias mulheres redimensiona ainda mais a ousadia inicial do filme/personagem.  E uma cartela virá a comentar que se trata de uma paragem que “foi esquecida pela Mãe Terra”, quase a contradizer a noção de paraíso maculado pelos brancos de seu início, demonstrando ser aparentemente imperativo mesmo é a exploração desse exótico/erótico. Porém, o herói pouco tempo depois cederá aos “desígnios” de sua raça, ao ver pérolas sendo descartadas e, munido da mesma ganância que criticara em seus iguais, mergulhará em busca delas avidamente.  O realismo com que representa os efeitos nocivos das condições amadoras dos mergulhadores tampouco seria possível de ser apresentada pela produção norte-americana pós-Código Hays, tal como a saliva branca e volumosa assomando a boca do homem ainda inconsciente e que, após horas de tentativa de reanimação, morre. A imagem de seres marinhos caminhando sobre o corpo desacordado do náufrago também seria um toque de naturalismo a ser dispensado por situações similares da produção clássica posterior.  Os corpos atléticos masculinos (e aqui também femininos) semi-despidos e as imagens paradisíacas, acrescidas aqui por então raras imagens submarinas, assim como a perspectiva mistificada dos nativos voltariam a se encontrar presentes no clássico Tabu (1931) de Murnau, que também contaria com a colaboração de Flaherty, que havia se antecipado a ambos com seu Moana (1926). Não se escusa em apresentar uma suma de todos os problemas enfrentados pelos nativos na caça de pérolas sem que se fique claro ao certo a dimensão temporal em que ocorrem – embora se torne pouco verossímil que aconteçam seguidamente como apresentadas pelo filme e as cartelas pareçam ressaltar que são situações genéricas, a ambiguidade da construção visual permanece em última instância até o final da sequencia, quando se fica sabendo que somente o último caso ocorre contemporaneamente à ação dramática em questão. O resultado final, com todos os seus excessos e ocasionais clichês, soa demasiado maduro em termos do que se produzia então, e mesmo tocante em sua representação final de uma nostalgia pela perda irremediável do paraíso  sentido pelas lágrimas de desencanto de Fayaway, enquanto seu irmão se tornou apenas mais um dos caçadores de pérolas a arriscar a vida.   Primeiro filme a utilizar o que se tornaria a célebre marca registrada do estúdio com um leão rugindo e também o primeiro filme sonoro do estúdio – sendo  o som aqui restrito a utilização de efeitos sonoros e música, os diálogos ainda sendo expressos através das habituais cartelas dos filmes mudos. MGM. 88 minutos.

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