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sexta-feira, 1 de abril de 2016

The Film Handbook#69: Kenji Mizoguchi



Kenji Mizoguchi
Nascimento: 16/05/1898, Tóquio, Japão
Morte: 24/08/1956, Quioto, Japão
Carreira:  (como diretor): 1923-56

Apesar de somente uma fração da produção total de Kenji Mizoguchi ter sobrevivido (com quase dois terços de seus 80 a 90 filmes - incluindo praticamente todos os 55 realizados antes de 1936 hoje perdidos) torna-se claro com as cerca de dúzia de filmes observados comercialmente no Ocidente que ele foi um diretor maior, notavelmente não somente por sua simpatia radical sobre a posição social das mulheres no Japão, mas igualmente por seu estilo visual singularmente gracioso.

Mizoguchi se aproximou do cinema após estudar a pintura ocidental e ilustrar anúncios de jornais. Após um ano como assistente de Osamu Wakayama iniciou sua prolífica carreira como diretor com A Resurreição do Amor/Yorû Yami no Sasayaki. A maior parte de seus filmes iniciais foram melodramas, filmes de ação e adaptações de sucessos literários ou teatrais e não foi antes de 1936 que conquistou um genuíno estilo maduro com Elegia de Osaka/Naniwa Ereji e As Irmãs de Gion/Gion no Shimai, o primeiro uma tocante história de uma mulher forçada à prostituição para bancar sua família (símbolo e vítima do capitalismo japonês do século XX). Também relevante para a condição das mulheres japonesas foi Crisântemos Tardios/Zangiku Monogatari>1, no qual uma mulher de classe social inferior que seu fraco amante, ator de kabuki, sacrifica a relação deles para assegurar o sucesso de sua carreira futura; Utamaro e Suas Cinco Mulheres/Utamaro o Meguro Gonin no Onna


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com os modelos do artista do século XVIII servindo como um espelho multi-facetado da opressão das mulheres na Era Edo; e Amor em Chamas/Waga Koi wa Moenu, sobre uma pioneira dos direitos femininos que descobre que a luta pela democracia no Japão do final do século XIX leva em conta somente metade da população. Apesar da riqueza de detalhes históricos observados (um dos maiores talentos de Mizoguchi foi sua recriação perfeccionista do passado) o que distingue tais filmes é a forma como tanto o roteiro, frequentemente escrito pelo colaborador regular Yoshitaka Yoda) quanto direção iluminam as injustiças do mundo sem ficarem presos ao moralismo fácil.

Porém foi A Vida de Oharu>2 que revelou Mizoguchi no pique de seu talento, conquistando o Festival de Veneza e certificando que a Daiei lhe daria carta branca no futuro. Baseado em um clássico do século XVII, a história da queda de uma cortesã imperial após reagir a um amor humilde e seu inexorável rumo à prostituição, pobreza e velhice, parece pronta para ser colhida pelo melodrama: tão simpático, no entanto, é a insistência de Mizoguchi na dignidade da brava mulher em face da traição e exploração cruéis, sendo igualmente tranquilo seu tratamento da paixão, que o status de Oharu se torna trágico e universal. Uma câmera fluida e sem obstáculos, somada à planos-seqüência e composições pictóricas frequentemente observam a uma distância, ao mesmo tempo remota e discreta, emprestam ao filme tanto beleza quanto integridade emocional sem nunca cairmos no subterfúgio do ponto de vista. De forma semelhante, em Contos da Lua Vaga/Ugetsu Monogatari>3, o fantasma que um oleiro se apaixona mal se diferencia visualmente dos outros personagens do filme, enquanto os sofrimentos terríveis e bárbaros de uma família no Japão feudal do século XI, em Intendente Sansho/Sanshô Dayû, são observados com um olhar contemplativo, mais que voyeurístico.

Os Amantes Crucificados/Chikamatsu Monogatari>4, talvez o melhor filme de Mizoguchi, novamente trata a opressão da mulher e das classes mais humildes, com a mulher de um mercador forçada a fugir da morte (de uma pena por adultério, do qual foi injustamente acusada) com um empregado de seu marido. Notável por sua deslumbrante fotografia (particularmente quando a mulher planeja se suicidar em um minúsculo barco a remo num plácido lago sendo impedida pela declaração de amor final de seu companheiro de fuga), o filme também tem seu clímax com a imagem mais desafiadoramente assombrosa quando o casal é encaminhado lentamente ao local de sua crucifixação, Agora, enfim, serenos e felizmente seguros de seu amor mútuo.

A Imperatriz Yang Kwei Fei, o primeiro dos dois filmes em cores do diretor, foi uma variação ainda mais mundana em tema similar, mas A Nova Saga do Clã Taira/Shin Heike Monogatari>5 foi um complexo épico histórico ambientado no século XII no qual intrigas e batalhas mortíferas retratam sutilmente a passagem do poder de repressores senhores dinásticos e subservientes monges a uma nova classe de guerreiros. O uso da cor é exemplar, tanto surpreendentemente elegante em si mesma quanto dramaticamente significativa; porém típico também é o tom elegíaco com o qual Mizoguchi evoca um mundo há muito desaparecido, enquanto simultaneamente questiona o gosto japonês por tradições elitistas, opressoras e arcaicas. Essa perspectiva radical, que havia instruído seu continuado interesse na posição das mulheres, inspirou seu último filme a ser completado, A Rua da Vergonha/Akasen Chitai. que tratava dos apuros das prostitutas do mundo moderno com característica simpatia.

Os cenários históricos, beleza frágil e lirismo suave dos filmes de Mizoguchi não escondem sua fúria cuidadosamente controlada e pertinente à vida do século XX. E é em seu eterno crédito, portanto, que emergem  obras de arte menos como tratados sócio-políticos que emocionalmente comoventes e dramaticamente refinadas: tanto é que tem ganho reconhecimento universal enquanto magnânimo cinema.

Cronologia
Desde que poucos dos primeiros filmes de Mizoguchi estão hoje disponíveis e a maior parte dos filmes japoneses foi estritamente realizada de acordo com estritas convenções de gêneros, discernir influências em sua obra se torna difícil. Ele próprio, por sua vez, é tido como tendo influenciado, dentre outros, Masahiro Shinoda e, em menor medida, Kurosawa, um auto-confesso admirador.

Destaques
1. Crisântemos Tardios, Japão, 1939 c/Shotaro Hanayagi, Kakuko Mori,  Gonjuro Kawarazaki

2. A Vida de Oharu, Japão, 1952 c/Kinuyo Tanaka, Toshiro Mifune, Hisako Yamane

3. Contos da Lua Vaga, Japão, 1953 c/Machiko Kyo, Kinuyo Tanaka, Masayuki Mori

4. Os Amantes Crucificados, Japão, 1954 c/Kazuo Hasegawa, Kyoko Kagawa, Yoko Minamida

5. A Nova Saga do Clã Taira, Japão, 1955 c/Raizo Ichikawa, Ichijiro Oya

Fonte: Andrew, Geoff. The Film Handbook, Londres: Longman, 1989, pp. 199-201.



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