O Dicionário Biográfico de Cinema#361: Michel Piccoli
Michel Piccoli, n. Paris, 1925(*)
Há uma nota maravilhosa de conhecedor melancólico em Piccoli. É uma qualidade que se ajusta a filmes de humores muito diferentes, mas que nunca parece se afastar do original. Aparentemente calmo, e mesmo desapaixonado, Piccoli possui a consistência que distingue importantes atores cinematográficos e que possibilita encontrar algo dele próprio em cada papel sem se esforçar. Tal personalidade é admiravelmente adequada para desempenhar papéis apenas esboçados em um roteiro: portanto é excelente como o inquieto e auto-reflexivo roteirista em Le Mépris [O Desprezo] (63, Jean-Luc Godard); como o sardônico devasso, reclamando do frio, em La Belle de Jour [A Bela da Tarde] (67, Luis Buñuel); ou como o homem meditando sobre a violência e fuga em Dillinger è Morto [Dillinger Morreu] (69, Marco Ferreri).
Piccoli é de origem italiana, como sua aparência escura e magra, assim como seu nome pode sugerrir. Esteve no palco por dez anos, durante os quais realizou um único filme, Le Point du Jour (49, Louis Daquin). Mas em 1955, ele entrou seriamente no cinema, rapidamente vindo a ganhar uma enfiada de papéis tão notáveis quanto aqueles de qualquer outro ator francês de seu tempo: French Cancan (55, Jean Renoir); Les Mauvaises Rencontres (55, Alexandre Astruc); La Mort en ce Jardin [A Morte no Jardim] (56, Luis Buñuel); Les Sorcières de Salem [As Virgens de Salem] (57, Raymond Rouleau); Le Doulos [Técnica de um Delator] (62, Jean-Pierre Melville); Le Jour et l''Heure [O Dia e a Hora] (62, René Clément); Climats (62, Stellio Lorenzi); De L'Amour [O Amor] (64, Jean Aurel); o mestre da casa em Le Journal d'une Femme de Chambre [O Diário de uma Camareira] (64, Buñuel); Masquerade [Oriente Contra Ocidente] (64, Basil Dearden); Le Coup de Grâce [65, Jean Cayrol) (**); Compartiment Tueurs [Crime no Carro Dormitório] (65, Costa-Gavras); Lady L (65, Peter Ustinov); Paris Brule-t-il? [Paris Está em Chamas?] (66, Clément); La Guerre est Finie [A Guerra Acabou] (66, Alain Resnais); Les Créatures [As Criaturas] (66, Agnès Varda); Un Homme de Trop [Tropa de Choque: Um Homem a Mais] (66, Costa-Gavras); La Voleuse (66, Jean Chapot); La Curée [O Perigoso Jogo do Amor] (66, Roger Vadim); como Monsieur Dame (Guillotine na versão inglesa) em Les Demoiselles de Rochefort [Duas Garotas Românticas] (67, Jacques Demy); Mon Amour, Mon Amour (67, Nadine Trintignant); Benjamin [Benjamin, o Despertar de um Jovem Inocente] (67, Michel Deville); Diabolik [Perigo: Diabolik] (67, Mario Bava); La Chamade [A Chamada do Amor] (68, Alain Cavalier); La Prisonnière [A Prisioneira] (Henri-Georges Clouzot); La Voie Lactée [Via Lactéa] (68, Buñuel); Topaz [Topázio] (69, Alfred Hitchcock); L'Invitata (69, Vittorio De Seta); Les Choses de la Vie [As Coisas da Vida] (70, Claude Sautet); Max et les Ferrailleurs [Sublime Renúncia] (70, Sautet); L'Invasion [A Invasão Hippie] (70, Yves Allégret); La Poudre d'Escampette [Aventura na Estrada do Sol] (71, Philippe de Broca); La Decade Prodigieuse [10 Dias Fantásticos] (71, Claude Chabrol); como moderno homem das cavernas Themroc (72, Claude Faraldo); (***) Les Noces Rouges [Amantes Inseparáveis] (73, Chabrol); Le Grande Bouffe [A Comilança] (73, Ferreri); Le Trio Infernal [Trio Infernal] (74, Francis Girod); Le Fantôme de la Liberté [O Fantasma da Liberdade] (74, Buñuel); Vincent, François, Paul et les Autres [Vicente, Francisco, Paulo e os Outros] (75, Sautet); Couleur Chair (77, François Weyergans); Le Part du Feu (78, Etienne Pérrier); Mado [Mado, um Amor Impossível] (77, Sautet); Des Enfants Gâtés [Spoiled Children] (77, Bertrand Tavernier); Le Imprécateur (77, Jean-Louis Bertuccelli; La Petite Fille en Velours Bleu (77, Alan Bridges); e Le Sucre (78, Jacques Rouffio).
Esteve em Giallo Napoletano [Atos Proibidos de Amor e Vingança] (79, Sergio Corbucci); Salto nel Vuolto [Leap into the Void] (80, Marco Bellocchio); La Fille Prodigue (80, Jacques Doillon); Atlantic City (81, Louis Malle); Passion [Paixão] (82, Godard); Une Chambre en Ville [Um Quarto na Cidade] (82, Jacques Demy); Le Prix du Danger [O Prêmio do Perigo] (82, Yves Boisset); Luís XVI em La Nuit de Varennes [Casanova e a Revolução] (83, Ettore Scola); Gli Occhi, La Bocca [Os Olhos na Boca] (83, Bellochio); Viva la Vie (84, Claude Lelouch); Adieu Bonaparte (84, Youssef Chahine); Dangerous Moves [Fora de Controle] (84, Richard Dembo); Peril en la Demeure [Perigo no Coração] (85, Michel Deville); Success is the Best Revenge [O Sucesso é a Melhor Vingança] (85, Jerzy Skolimowski); Mauvais Sang [Sangue Ruim] (86, Leos Carax); Le Paltoquet (87, Michel Deville); Milou en Mai (90, Malle); Martha und Ich (90, Jirí Weiss); em seu melhor, como o escultor em La Belle Noiseuse [A Bela Intrigante] (91, Jacques Rivette); como Jean Genet em L'Equilibriste (91, Nico Papatakis).
Como veterano, ele aparentemente se sentia capaz de fazer tudo. Na verdade, havia poucos bons filmes, mas era dificilmente sua culpa: L'Amour Maudit de Leisenbohg (91, Edouard Molinaro); Le Bateau de Lu (91, Christine Citti); Le Bal des Casse-Pieds [Esse Mundo é dos Chatos] (92, Yves Robert); como Jules Verne em From Time to Time (92, Jeff Blyth); Archipel (92, Pierre-Granier Deferre); La Cavale des Fous (93, Marco Pico); Rupture(s) (93, Citti); L'Ange Noir [Anjo Negro] (94, Jean-Claude Brisseau); um curta, Tren de Nuit (94), que escreveu e dirigiu ele próprio; Al-Mohager (94, Chahine); Bête de Scène (94, Bernard Nissile); Tödliches Geld (95, Detlef Ronfeld); Beaumarchais l'Insolent [O Insolente] (96, Molinaro); Party (96, Manoel de Oliveira); Tykho Moon [Tykho Moon - Segredos da Eternidade] (96, Enki Bilal); Compagna di Viaggio [Travelling Companion] (96, Peter Del Monte); Généalogies d'Un Crime [Genealogias de um Crime] (97, Raoul Ruiz); Pasion in the Desert [Uma Paixão no Deserto] (97, Lavinia Courrier); Rien sur Robert (99, Pascal Bonitzer); Libero Burro (99, Sergio Castellitto); París Tumbuctú (99, Luis García Berlanga); Tout Va Bien,On S’en Va (00, Claude Maurieras); Je Rentre à la Maison [Vou para Casa] (01, Oliveira); Yadon Ilaheyya [Intervenção Divina] (02, Elia Suleiman) - apenas uma voz; La Petit Lili [A Pequena Lili] (03, Claude Miller), adaptado de A Gaivota; Un Homme, un Vrai [A Real Man] (03, Arnaud e Jean-Marie Larrieu); Ce Jour-là (03, Raoul Ruiz).
Em seus oitenta, ainda é casual e mesmo aventureiro: dirigiu C’Est Pas Tout à Fait la Vie Dont J’Avais Rêvé (05); Jardins en Automne [Gardens in Autumn] (06, Otar Iosseliani); como Le Roi Lear (07, Don Kent), na TV francesa; Les Toits de Paris (07, Hiner Saleem); em Belle Toujours [Sempre Bela], uma reflexão sobre A Bela da Tarde, no qual Bulle Ogier substitui Deneauve; como Kruschev em Rencontre Unique (07, Oliveira); De la Guerre [Na Guerra] (08, Bertrand Bonello); Trilogia II: I Skoni tou Hrounou [Trilogia II: A Poeira do Tempo] (08, Theo Angelopoulos); L'Insurgée (09, Laurent Perreau); Habemus Papam (11, Nanni Moretti); Vous n'Av Encore rien vu [Vocês Ainda Não Viram Nada!) (12, Alain Resnais); Holy Motors (12, Carax); Linhas de Wellington (12, Valeria Sarmiento); Le Goût des Myrtilles [The Taste of Others] (14, Thomas de Thier).
Texto: Thomson, David. The New Biographical Dictionary of Film. N. York: Alfred A. Knopf, 2014, pp. 2065-68.
N. do E: (*): falecido em 2020.
N. do E: (**) co-dirigido com Claude Durand, pelo IMDB.
N. do E: (***) curiosamente é omitida sua participação em La Charme Discrete du Burgeoisie [O Discreto Charme da Burguesia] (72, Luis Buñuel]

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