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quarta-feira, 4 de julho de 2018

Filme do Dia: Pai e Filho (2003), Aleksandr Sokurov


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Pai e Filho (Otetes i Syn, Rússia/Alemanha/Itália/Holanda, 2003). Direção: Aleksandr Sukorov. Rot. Original: Sergei Potepalov. Fotografia: Aleksandr Burov. Dir. de arte: Natalya Kochergina. Com: Andrei Shchetinin, Aleksei Nejmyshev, Aleksandr Razbash, Fyodor Lavrov, Marina Zasukhina, João Gonçalves.
Jovem militar Aleksei (Nejmyshev) percebe sua relação com sua namorada (Zasukhina), que possui outro amante mais velho, terminar, ao mesmo tempo que se sente “crucificado” pelo amor do pai (Shchetinin) e ciceroneia outro jovem, Fyodor (Lavrov), filho de um ex-companheiro de exército do pai desaparecido.
O enredo em si mesmo tem dimensão modesta perante o potencial evocativo de traduzir uma atmosfera que é um verdadeiro “estado da alma” do protagonista. Embora possua uma visível influência literária, o filme de Sokurov irá construir essa perspicácia para com uma subjetividade ao mesmo tempo densa e a qual se tem pouco acesso através de imagens de uma beleza que em muito transcende qualquer realismo chão. Embora não opere com a explicitação quase “didática” dos conflitos psicológicos vivenciados pelos seus personagens mesclando “sonho” e “realidade” como em certos filmes de Bergman, Sokurov irá construir tal sensibilidade através de uma rigorosa conjunção de elementos. Esses são, entre outros, fotografia, direção de arte (os cenários são um caso à parte enquanto elementos potencializadores da construção dessa sensibilidade, algo que transcende igualmente para a estranheza que persiste nas próprias locações escolhidas), direção de atores, a trilha musical inspirada em temas de Tchaikovsky e estruturação dos planos. No último caso, é magistral e poético o que ele consegue extrair, por exemplo, de um recurso tão vulgarizado pelo cinema clássico americano quanto o plano e contra-plano na seqüência do encontro entre Aleksei e sua namorada. O mais extraordinário de sua façanha é transcender de muito o realismo e se aproximar de uma dimensão quase “espiritual” de seu protagonista e do mundo que o cerca que evoca grandemente Tarkovski sem apelar como esse para qualquer momento de explícita transcendência (seja os minutos de imponderabilidade em Solaris ou a levitação de personagens em O Espelho ou O Sacrifício). É interessante, nesse sentido, quando Aleksei parece levitar a partir do nada e logo depois se descobre que, na verdade, ele faz exercícios com argolas. Sua recusa de abandonar de todo situações banais, ainda que sem o detalhismo do gesto presente em Bresson e Tarkovski e seu evidente desprezo por uma narrativa realista podem confundir o espectador incauto sugerindo um formalismo inconsistente. Também devem ter sido influências para esse distinto estranhamento construído pelo cineasta a literatura de Dostoiévski e Kafka. O Prêmio FIPRESCI no Festival de Cannes levou em conta além da extraordinária beleza das imagens a tampouco menos desprezível maneira pouco ortodoxa em que se manifesta a relação de amor entre pai e filho, no limite de se transformar numa relação plenamente sexuada como presente nas imagens iniciais. Isabella Films B.V/Lumen Films/Mikado Film S.r.l/Nikola Film/Zero Film GmbH. 83 minutos.

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