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#ELENÃO

terça-feira, 31 de julho de 2018

Filme do Dia: Eros (2004), Michelangelo Antonioni, Steven Soderbergh & Wong Kar-wai


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Eros (EUA/Itália/Hong Kong/China/França/Luxemburgo/Reino Unido, 2004). Direção: Michelangelo Antonioni, Steven Soderbergh, Wong Kar-wai. Rot.Adaptado: Michelangelo Antonioni & Tonino Guerra baseado em conto É Perigoso Quando Tudo se Encaixa, de Antonioni (episódio É Perigoso Quando Tudo se Encaixa); Rot. Original: Steven Soderbergh (episódio Equilíbrio); Wong Kar-wai (episódio A Mão). Fotografia: Marco Pentecorvo ( É Perigoso Quando Tudo se Encaixa), Steven Soderbergh (Equilíbrio) & Christopher Doyle (episódio É Perigoso Quando Tudo se Encaixa). Música: Enrica Antonioni & Vinicio Milani ( É Perigoso Quando Tudo se Encaixa), Chico O´Farril ( Equilíbrio) & Peer Raben (A Mão). Montagem: Claudio Di Mauro(É Perigoso Quando Tudo se Encaixa), Steven Soderbergh (Equilíbrio), William Chang (A Mão). Dir. de arte: Stefano Luci (É Perigoso Quando Tudo se Encaixa), Phillip Messina (Equilíbrio) & William Chang (A Mão). Cenografia: Kristen Toscano Messina. Figurinos: Carin Berger (É Perigoso Quando Tudo se Encaixa), Milena Canonero (Equilíbrio), William Chang (A Mão). Com: Christopher Buchholz, Regina Nemni, Luisa Ranieri (É Perigoso Quando Tudo se Encaixa), Robert Downey Jr., Alan Arkin, Ele Keats (Equilíbrio), Gong Li, Chang Chen, Tin Fung, Auntie Luk, Zhou Jianjou.
É Perigoso Quando Tudo se Encaixa. Christopher (Buchholz) vive uma crise na sua relação com Cloe (Nemni) e se sente atraído pela vizinha de ambos, Linda (Ranieri), com quem mantém relações sexuais. Equilíbrio. Desenhista industrial (Downey Jr.) perde o equilíbrio e vai a um analista em busca de auxílio. Enquanto conta o mais detalhadamente que pode o sonho que teve com sua mulher (Keats), o analista (Arkin) possui sua atenção bastante longe do consultório. A Mão. Auxiliar de alfaiataria, Zhang (Chen) se apaixona pela prostituta, a Senhora Hua  (Li), a quem faz entregas, após ter sido induzido a ter contatos sexuais com ela. Na decadência, Zhang é uma das poucas pessoas que ainda a auxiliam.
Com episódios irregulares (sendo o menos interessante e mais fora do contexto o dirigido por Soderbergh), o filme se salva sobretudo graças ao inspirado episódio final dirigido por Kar-wai. Como poucos cineastas contemporâneos, Kar-wai consegue uma intensidade na descrição de seus relacionamentos (como já demonstrara em Felizes Juntos e, principalmente, Amor à Flor da Pele) justamente ao abdicar do sentimentalismo, da dependência dos diálogos e de uma narrativa repleta de eventos. Ajuda em muito na construção de seu universo imagético bastante expressivo a utilização pouco ortodoxa da trilha musical, cenários, iluminação e uma fotografia esmaecida (nesse sentido demonstrando sua dívida para com Fassbinder, fazendo uso inclusive de uma trilha musical do autor de todas as trilhas do cineasta alemão) e o fato de lidar com personagens completamente distantes de possuírem qualquer apelo maior aparente no que são, ainda que a utilização de todos esses recursos já havia sido feita de maneira praticamente igual em Amor à Flor da Pele, cujo tema também era semelhante. O modo como Cheng consegue encarnar a paixão altruísta de seu personagem é não menos que comovente. Outro dos méritos do filme de Kar-wai é que o único erótico dos três episódios, e seu erotismo deriva menos de cenas picantes, embora possua uma cena do tipo, quando o protagonista é iniciado pela prostituta, que da delicadeza e ao mesmo tempo intensidade com que alfaiate e prostitua se abraçam. Sua maestria, ao conseguir compor um retrato apaixonante tanto da prostituta, que afirma que não consegue mais sobreviver de seu próprio corpo, quanto de seu apaixonado e fiel admirador vai até a opção de um final anti-climático em que toda a sensibilidade do jovem alfaiate se choca de maneira atroz com a crua realidade da monotonia de seu trabalho personificada  na indagação de seu patrão. O episódio de Antonioni, na verdade um curta dirigido pelo cineasta em 2001 e inserido nessa produção se encontra longe dos momentos mais inspirados do cineasta, apresenta cenas de uma sexualidade aparentemente gratuita e parece ser um irônico tributo ao que pode levar duas pessoas a vivenciaram um ato sexual e nada mais que isso. Embora faço uso de artimanhas narrativas, cenários e personagens da burguesia em crise que o tornaram célebre em produções memoráveis dos anos 50 e 60, esse curta não apenas se encontra distante da mesma densidade conseguida com tais obras como parece até mesmo ser, em certos momentos, uma auto-paródia do cineasta com relação aos mesmos. Por fim, o algo lacônico episódio de Soderbergh, filmado belamente em p&b (com fotografia do próprio cineasta) em que uma tentativa de humor não chega a se concretizar de fato. Royssi Films/Block 2 Pictures Inc./Jet Tone Films/Ipso Facto/Solaris/Cité Films/Fandango/Delux Productions. 104 minutos.