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terça-feira, 10 de junho de 2014

Filme do Dia: Odeio Essa Mulher (1958), Tony Richardson






Odeio Essa Mulher (Look Back in Anger, Reino Unido, 1958). Direção: Tony Richardson. Rot. Adaptado: Nigel Kneale & John Osborne, baseado na peça de Osborne. Fotografia: Oswald Morris. Música: John Addison & Chris Barber. Montagem: Richard Best. Dir. de arte: Peter Glazier. Figurinos: Jocelyn Rickards. Com: Richard Burton, Claire Bloom, Mary Ure, Edith Evans, Gary Raymond, Glen Byam Shaw, Phillis Neilson-Terry, Donald Pleasence, S.P. Kapoor.

        Jimmy Porter (Burton) é um vendedor de feira e, nas horas vagas trompetista de jazz, casado com uma jovem de melhor situação social, Alison (Ure). O relacionamento do casal, que possui como testemunha o fiel amigo de ambos, Cliff (Raymond), é tempestuoso. A situação se torna insuportavelmente tensa a partir do momento que uma amiga de Alison e atriz Helena Charles (Bloom), une-se ao grupo. Uma velha senhora que fora como uma mãe para Jimmy, a Sra. Tanner (Evans) se encontra em estado terminal e Jimmy, fragilizado, espera que a esposa o acompanhe. Alison, que se encontra grávida,  prefere seguir o conselho de Helena e partir para a casa dos pais. Helena passa a viver um relacionamento com Jimmy e Cliff, sentindo-se excluído na nova relação de Jimmy, prefere partir para construir sua própria vida. Quando o casal despede-se de Cliff, Alison, que perdeu o filho, reaparece e Helena decide romper com Jimmy. Ocorre uma reaproximação entre Alison e Jimmy, agora que ela afirma se encontrar disposta a encarar a vida como ela é.
Essa estréia em longa-metragem do cineasta foi considerado como um dos marcos do Kitchen Sink Cinema, o equivalente britânico da Nouvelle Vague francesa. Ao contrário dos primeiros filmes de Truffaut e, principalmente Godard, o filme possui uma preocupação explícita em retratar as relações entre a crise de valores da sociedade mais ampla e os dramas particulares vivenciados pelos personagens que retrata. Descrevendo de uma forma mais realista que até então o universo de pessoas desglamorizadas, seguindo a trilha da própria peça de Osborne, que já provocara choque quando montada (com direção do próprio Richardson). O filme torna-se envolvente tanto na sua construção de uma Inglaterra dividida entre o peso de sua tradição colonialista francamente em declínio em contraposição a uma nova geração que anseia por transformações sociais mais radicais quanto – e principalmente – pela sua talentosa construção dos conflitos pessoais de seus personagens. Por outro lado, ressente-se da maior inventividade visual que marcou a produção francesa contemporânea, sendo não só pouco ousado em termos formais, como até mesmo francamente dependente de uma estrutura ainda grandemente herdeira da literatura e, principalmente, do teatro. Para ilustrar algumas das polarizações que vivencia a sociedade britânica de então se apresenta o preconceito vivenciado por um indiano e a repercussão diferenciada que recebe um filme que exalta as glórias do colonialismo britânico entre um homem mais convencional e Jimmy. Aliás, o protagonista, vivido soberbamente por Burton, será um dos precursores no teatro e cinema do chamado angry young man. Algumas de suas falas, como quando aparenta pouco caso com o fato da mulher se encontrar grávida, ainda que excessivamente teatrais, parecem se chocar com a sensibilidade e moral burguesa tradicionais de então, antecipando a linguagem cortante, auto-reflexiva e semelhantemente teatral do menos politizado e realista Quem Tem Medo de V.Woolf?, protagonizado pelo mesmo Burton.  Sua consciência da superioridade americana no cenário mundial do pós-guerra faz com que afirme, em um certo momento, que os americanos são “os únicos que realmente se divertem”. Ironicamente, a influência da cultura americana se dará em Jimmy justamente através do jazz, estilo musical associado aos losers nos EUA.  Seu estilo realista certamente influenciaria tanto cineastas como Mike Leigh e Ken Loach, a partir do final da década seguinte, como boa parte da geração dos anos 80, sobretudo Stephen Frears. A peça de Osborne foi refilmada em 1980 por outro nome associado ao Kitchen Sink, e anteriormente ao Free Cinema, Lindsay AndersonWoodfall Film Productions. 115 minutos.


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